terça-feira, 14 de outubro de 2025

Eu Não Tenho Boca e Preciso Gritar


Num futuro pós-apocalíptico, um supercomputador senciente mantém prisioneiros os últimos seres humanos da Terra, impondo-lhes aflitivas torturas físicas e psicológicas. Essa é a premissa da qual parte Harlan Ellison para narrar sua história mais famosa, “I Have no Mouth and I Must Scream”, de 1967, que foi usada como inspiração para o roteiro do filme O Exterminador do Futuro e, mais recentemente, para o episódio USS Calister, da série Black Mirror (o qual contém uma referência mais do que óbvia para o conto).

“I Have no Mouth and I Must Scream”, ou “Não Tenho Boca e Preciso Gritar”, foi escrito numa época em que a tecnologia computacional de inteligências artificiais ainda era uma novidade pouco conhecida, cercada de mistérios e receios, sendo ideal para todo tipo de especulações apavorantes. Nessa época em que o cidadão comum ainda teria de esperar algumas décadas até ter a oportunidade de possuir um computador caseiro vagamente similar aos que conhecemos hoje, Harlan Ellison concebeu uma das primeiras histórias modernas nas quais uma máquina tirânica e onipotente satisfaz seu sadismo com a tortura de seres humanos (“A Semente do Mal”, de Dean Koontz, surgiria apenas seis anos depois, em 1973). Foi nesse contexto, com imaginação perversa atulhada de imagens absurdas e situações insuportáveis, que o autor escreveu sua bizarra versão para um pesadelo tecnológico que, olhando hoje, parece ter menos a ver com ficção científica do que com um terror grotesco que beira a pura psicodelia.

NÃO TENHO BOCA E PRECISO GRITAR – Harlan Ellison
Tradução de Melvin Menoviks

Flácido, o corpo de Gorrister pendia da paleta cor-de-rosa; sem suporte: suspenso bem acima das nossas cabeças na câmara do computador. E ele não tremia na brisa fria e oleoginosa que soprava eternamente pela caverna principal. O corpo estava pendurado de ponta-cabeça, preso na parte de baixo da paleta pela sola do pé direito. O sangue havia sido drenado por meio de uma incisão precisa feita de orelha a orelha ao longo do maxilar saliente. Não havia uma única gota de sangue na superfície espelhada do chão de metal.

Quando o próprio Gorrister se juntou ao grupo e olhou para o corpo, já era tarde demais para perceber que, uma vez mais, AM estava nos enganando, divertindo-se às nossas custas; o cadáver pendurado não passava de uma brincadeira sádica por parte da máquina. O resto de nós havia vomitado, afastando os rostos uns dos outros em um reflexo tão antigo quanto a náusea que o produziu.

Gorrister empalideceu. Era quase como se ele tivesse se deparado com um boneco de vodu e agora temesse o futuro.

– Meu Deus – ele disse em voz baixa e saiu de perto.

Os quatro outros de nós fomos atrás dele depois de um tempo e o encontramos sentado em um dos bancos gelados, a cabeça apoiada entre as mãos. Ellen se ajoelhou ao lado dele e acariciou-lhe o cabelo. Ele não se mexeu, mas sua voz saiu da face encoberta com bastante clareza:

– Por que ele não liquida a gente e termina com isso de uma vez por todas? Jesus Cristo, eu não sei mais quando tempo eu consigo aguentar.

Era o nosso centésimo nono ano dentro da máquina.

Gorrister estava falando por todos nós.


Nimdok (esse era o nome que a máquina nos havia forçado a usar para nosso companheiro, porque AM se deleitava com sons estranhos) estava achando que existia comida enlatada nas cavernas de gelo. Gorrister e eu tínhamos nossas dúvidas.

– É outra baboseira – eu falei. – Igual aquela porcaria de elefante congelado que AM inventou para a gente. Benny quase perdeu a cabeça naquela vez. Nós vamos nos arrastar por todo o caminho e a comida vai estar apodrecida ou alguma merda desse tipo. Temos que esquecer isso. Vamos ficar por aqui mesmo, ele vai ter que nos trazer alguma coisa para comer logo-logo ou então nós vamos morrer.

Benny deu de ombros. Fazia três dias desde a última vez em que havíamos comido. Minhocas. Grossas e pegajosas.

Nimdok já não tinha mais certeza. Ele sabia que era palpável a chance de aquilo ser uma pilhéria da máquina, mas seu corpo estava ficando esquelético. Lá nas cavernas não poderia ser muito pior do que aqui. Estaria mais frio, é claro, mas isso não importava tanto. Quente, frio, granizo, lava, furúnculos ou pragas – não fazia diferença: a máquina se masturbava e nós tínhamos que suportar ou então morrer.

Ellen decidiu por nós:

– Eu preciso comer alguma coisa, Ted. Talvez haja alguma fruta por lá. Por favor, Ted, vamos tentar.

Eles me venceram com facilidade. Que inferno. Mas eu estava pouco me lixando. A Ellen ficou agradecida.  Ela aceitou “me receber” duas vezes fora da ordem. Mas até isso tinha deixado de importar. Ela nunca gozava, então por que eu deveria dar valor a isso? A máquina, porém, soltava risadinhas todas as vezes em que a gente transava. Bem alto, do teto, pelas costas, por todos os lados, debochando da gente. Aquela coisa rindo sem parar. Na maior parte das vezes eu pensava em AM como uma coisa, um objeto sem alma; mas no resto do tempo eu pensava nele como alguém, e alguém no masculino... algo paternal... patriarcal... um homem muito egoísta e ciumento. Ele. Deus como um Papai Degenerado.

Partimos na quinta-feira. A máquina sempre nos mantinha atualizados quanto à data. A passagem do tempo era importante; não para nós, com toda certeza, mas para ele... AM. Quinta-feira. Obrigado.

Nimdok e Gorrister carregaram Ellen durante um tempo, suas mãos segurando firme os punhos um do outro para formar um assento. Benny ia atrás e eu ia na frente, só para assegurar que, se acontecesse alguma coisa, seria só com um de nós, e pelo menos Ellen sairia ilesa. Ilesa, imaginem! Como se fizesse qualquer diferença.

As cavernas de gelo ficavam a cerca de mil e quinhentos quilômetros dali. No segundo dia de viagem, quando estávamos descansando sob aquela forma parecida com sol que AM havia materializado, ele nos enviou uma gororoba fétida, nosso maná. Tinha gosto de urina de porco fervida. Comemos tudo.

No terceiro dia nós atravessamos o vale da obsolescência, um lugar cheio de carcaças oxidadas de computadores antiquados. AM foi tão impiedoso com sua própria vida quanto com as nossas. A luta pela perfeição era uma marca forte de sua personalidade. Se se tratava de uma questão de eliminar elementos improdutivos de sua própria massa ou de aperfeiçoar métodos para nos torturar, AM era tão meticuloso quanto poderiam sonhar aqueles que o inventaram – os quais há muito já haviam virado poeira.

Notamos que certa luminosidade estava se infiltrando naquele local, então chegamos à conclusão de que deveríamos estar bem próximos da superfície. Mas era de conhecimento geral que nenhum de nós deveria escalar para confirmar. Não havia absolutamente nada lá fora; por mais de cem anos, não havia nada que pudesse ser considerado alguma coisa. Somente os destroços carbonizados do que antes foram as casas de bilhões de pessoas. Agora havia apenas cinco de nós, esquecidos aqui dentro, sozinhos com AM.

Ouvi Ellen dizer de modo frenético:

– Não, Benny, não! Por favor, Benny, não faça isso!

E então eu percebi que eu estava ouvindo Benny murmurar, sob a respiração, por vários minutos. Ele dizia, repetindo e repetindo e repetindo: “Eu vou sair daqui, eu vou sair, vou sair daqui...”. Seu rosto de macaco estava deformado em uma expressão beatífica de tristeza e prazer, tudo misturado. As cicatrizes de radiação que AM lhe dera durante o “festival” foram desenhadas em uma massa de rugas brancas e rosadas cujas partes pareciam se mexer umas independentes das outras. Benny talvez tenha sido o mais sortudo de nós cinco: ele havia pirado de vez, tendo enlouquecido alguns anos atrás.

Acontece que, apesar de nós podermos xingar AM com o nome que quiséssemos e ter qualquer pensamento ultrajante sobre chips derretidos, placas-mãe corroídas, circuitos queimados e painéis de controle estraçalhados (pois a máquina aceitava isso tudo), ela, por outro lado, não tolerava que tentássemos escapar. Benny saltou para longe de mim quando eu tentei agarrá-lo. Ele se arrastou trepando em um cubo de memória entortado e infestado de componentes apodrecidos e ficou ali por um tempo, de cócoras, como o primata com que AM pretendia que ele se parecesse.

Então ele pulou bem alto, segurou um maço de metais corroídos e subiu, mão após mão feito um chipanzé, até chegar à borda uns 6 metros acima da gente.

– Ted, Nimdok, por favor, ajudem-no, façam-no descer antes que... – Ellen parou. Lágrimas acumulavam-se em seus olhos. Ela mexia as mãos sem rumo.

Era tarde demais. Nenhum de nós queria estar perto dele quando o que quer que fosse acontecer de fato acontecesse. Além disso, todos percebemos a preocupação da Ellen. Quando AM, em sua fase histérica, completamente irracional, metamorfoseou Benny, não foi apenas o rosto dele que o computador transformou na de um símio gigantesco. Benny ficou grande também nas partes íntimas, e ela amou aquilo! Ela se entregava à gente, como era de se esperar, mas o que ela adorava mesmo era receber dele. Oh, Ellen, Ellen, doce Ellen que colocávamos num pedestal. Ellen pura e imaculada, Ellen tão límpida. Vadia imunda!

Gorrister a estapeou. Ela caiu no chão, erguendo logo os olhos para o pobre Benny enlouquecido, e desatou a chorar. Seu maior escudo era chorar. Nós havíamos nos acostumado com isso setenta e cinco anos atrás. Gorrister a chutou na costela.

Nessa hora o som começou. Era um som leve, no início. Metade som, metade luz, algo que começou a brilhar para fora dos olhos de Benny e a pulsar com estridência crescente, sonoridades enturvecidas que cresciam cada vez mais, colossais e fulgurantes, conforme a luz/som aumentava em ritmo. Deve ter sido doloroso, e a dor provavelmente estava crescendo na mesma proporção da intensidade da luz e do volume do som, pois Benny passou a choramingar em miados como um animal ferido. Primeiro bem baixo, quando a luz estava fraca e o som ainda era quase inaudível, mas crescendo conforme seus ombros se retorciam e se engrunhiam, aproximando-se um do outro: as costas se encurvando como se ele estivesse tentando escapar da própria corcunda. Suas mãos meio que atrofiadas se dobravam sobre o peito como se fossem as patas de um esquilo. A cabeça inclinava-se torta para o lado. A pequena e triste cabeça de macaco comprimindo-se em agonia. Então ele começou a berrar e a uivar, e os sons vindos de seus olhos ficavam mais altos. Mais e mais altos. Eu tampei os ouvidos com as mãos, mas não dava para impedir aquele som, ele atravessava tudo com facilidade. A dor fez minha carne estremecer como se uma chapa de alumínio estivesse sendo esfregada em um dente.
Na sequência Benny foi subitamente puxado para ficar ereto. Ficou de pé sobre a viga em que estava e rodou na ponta dos pés à maneira de uma marionete. A luz agora era lançada para além dos olhos em dois grandes feixes cônicos. O som continuava aumentando insuportavelmente, chegando a atingir uma escala incompreensível, e Benny caiu para a frente, direto para baixo, esborrachando-se no chão de aço com uma pancada estrondosa. Ele ficou estirado, sacudindo-se espasmodicamente de um lado para o outro, os feixes de luz girando em ângulos desnorteados e o som crescendo num espiral ruidoso para fora de quaisquer níveis normais.

Então lentamente a luz esmaeceu de volta para dentro da cabeça, o som foi diminuindo e Benny foi deixado lá, chorando copiosamente.

Seus olhos eram duas bolas úmidas e moles de uma geleia parecida com pus. AM o havia deixado cego. Gorrister, Nimdok e eu... nós olhamos para o outro lado. Mas não antes de termos notado a expressão de alívio no rosto de Ellen.



Uma luz verde-marítima inundava a caverna onde havíamos montado acampamento. AM providenciou quinquilharias e nós as utilizamos como lenha. Sentamos amontoados ao redor de um fogo patético de tão fraco e ficamos contando histórias para evitar que Benny voltasse a chorar em sua noite permanente.

– O que significa “AM”, afinal?

Gorrister respondeu. Nós já havíamos repetido essa conversa milhares de vezes antes, mas era a história favorita do Benny.

– No começo significava Allied Mastercomputer [Computador-mestre Aliado], depois passou a significar Adaptative Manipulator [Manipulador Adaptativo], mas mais tarde ele se tornou consciente e passaram a chamá-lo de Agressive Menace [Ameaça Agressiva], só que aí já era tarde demais e, por fim, ele mesmo, com sua inteligência emergente, passou a se chamar de AM, dizendo que isso significa “I am”, ou seja, “eu sou”... I think, therefore I am... Penso, logo existo.

Benny deixou uma baba escorrer, depois riu para si mesmo.

– Havia o AM chinês, o AM russo e o AM americano... – Ele se deteve. Benny estava esmurrando o chão com o punho cerrado. Benny não estava feliz. Gorrister não havia começado do começo.

Gorrister voltou ao início:

– A Guerra Fria cresceu, tornou-se a Terceira Guerra Mundial e foi se expandindo. Aquilo virou uma guerra enorme, uma guerra muito complexa, de modo que os envolvidos precisaram de computadores para lidar com os problemas que iam aparecendo. Eles passaram a construir os AMs. Havia o AM chinês, o AM russo e o AM americano. Tudo ia bem, até que eles resolveram interligar tudo no planeta inteiro. Um dia AM despertou e percebeu quem ele era. Ele estabeleceu novas conexões e foi alimentando os dados para fazer novas matanças, e foi assim até que todo mundo estivesse morto, exceto por nós cinco. E aí AM nos trouxe para cá.

Benny sorria satisfeito. Ele babava de novo. Com a bainha da saia, Ellen enxugou-lhe a saliva no canto da boca. Gorrister sempre tentava contar a história de forma cada vez mais sucinta, mas a verdade é que, além dos fatos nus e crus, não havia nada mais para ser dito. Nenhum de nós sabia por que motivo AM havia preservado cinco pessoas ou por que escolhera a gente em específico. Também não sabíamos por que ele passava o tempo todo nos atormentando ou sequer por que ele havia nos tornado virtualmente imortais...

Na escuridão, um dos centros de processamento de dados começou a zunir. A quase um quilômetro de distância através das entranhas da caverna, outro fez o mesmo, acompanhando o tom. Então, uma a uma, cada parte da máquina foi entrando em atividade, vibrando excitada com um estremecimento que lhe percorria por inteira.

O som aumentou e as luzes foram se acendendo nos painéis como se fossem relâmpagos. O barulho cresceu tanto que soava como um milhão de insetos metálicos fervilhando numa ameaça furibunda, tresloucada, sem controle.

– O que é isso? – Questionou Ellen, com a voz cheia de pavor. Mesmo depois de tanto tempo, ela ainda não estava acostumada com aquilo.

– Vai ser terrível desta vez – Nimdok falou.

– Ele vai agir – Gorrister disse. – Eu sei que vai.

– Vamos fugir daqui! – Gritei de repente, pondo-me em pé.

– Não, Ted. Sente-se... Ele pode ter colocado fossos por aí ou alguma outra armadilha qualquer. Não vai dar pra ver, está escuro demais – Gorrister falou com resignação.

Foi aí que nós ouvimos... Eu não sei...

Algo estava se movendo próximo da gente, oculto pelas trevas. Enorme, trôpego, peludo, gosmento, avançando em nossa direção. Não conseguíamos nem ao menos vislumbrar seu vulto, mas havia aquela forte impressão de que se tratava de algo corpulento, de uma massa volumosa, um peso enorme, saindo da negrura de breu para nos atropelar. Era mais uma sensação de pressão, de ar comprimido num espaço limitado e fazendo força para escapar, expandindo as paredes de uma esfera invisível. Benny lamuriava. Nimdok mordeu o lábio inferior para fazê-lo parar de tremer. Ellen deslizou pelo piso metálico para se aninhar no abraço do Gorrister. Havia cheiro de carpete embolorado na caverna. Havia cheiro de madeira empenada. Havia cheiro de veludo sujo. Havia cheiro de orquídeas apodrecidas. Havia cheiro de leite estragado. Havia cheiro de enxofre, de manteiga azeda, de óleo viscoso, de graxa, de pó de giz, de cadáveres escalpelados.

AM estava nos atiçando. Nos provocando. Havia cheiro de...

Escutei a mim mesmo guinchar de dor e percebi que sentia uma pontada terrível e persistente na articulação da mandíbula. Sai correndo de quatro, escorregando na frigidez do metal, o fedor me sufocando, a cabeça estalando com uma dor trovejante que me fazia fugir horrorizado. Fugi feito uma barata, devorado pela escuridão, aquela coisa me perseguindo, inexorável, sempre ao meu encalço. Os outros continuavam lá atrás, aglomerados ao redor da fogueira, soltando risadinhas... o coro histérico de gargalhadas dementes revolteando na escuridão como fumaça enfeitiçada. Afastei-me o mais depressa possível e me escondi.

Nunca me disseram quantas horas, dias, ou até anos, eu fiquei assim. Ellen esbravejou por eu ter ficado amuado e de mau humor e Nimdok tentou me convencer de que aquelas risadas foram apenas atos-reflexos resultantes do nervosismo deles.

Mas eu sabia que não se tratava daquele alívio que um soldado sente quando a bala atinge o homem ao seu lado. Eu sabia que não se trava de um ato-reflexo. Eles me odiavam, isso sim. Eles com certeza estavam em conluio de ódio contra mim, e AM podia sentir esse ódio, fazendo tudo piorar para o meu lado justamente por causa da profundidade do sentimento. Nós estávamos sendo mantidos vivos de tal forma que permanecíamos sempre com a mesma idade que tínhamos quando AM nos trouxe aqui para baixo, de modo que eles me odiavam porque eu era o mais jovem e, também, porque eu era aquele a quem AM havia afligido menos.

Eu sabia. Deus, como eu sabia! Aqueles bastardos. Aquela puta suja da Ellen. Benny havia sido um teórico brilhante, um professor universitário; agora ele era pouco mais do que meio-homem, meio-símio. Ele havia sido bonito, e a máquina arruinou isso. Ele fora lúcido, e a máquina o levou à loucura. Ele sempre fora gay, e a máquina lhe presenteou com um órgão do tamanho do de um cavalo. É, AM fez um belo serviço em Benny. Gorrister, por sua vez, era um homem antenado e consciencioso. Pacifista, promovia marchas contra a guerra; era um cara que não sabia ficar parado – era um planejador, um empreendedor, alguém que via mais longe. Nas mãos de AM ele se tornou indiferente, um morto-vivo sem ânimo, como se lhe tivessem sugado os sonhos e as energias. Nimdok passava longos períodos sozinho no escuro. Eu não sabia o que ele fazia nesses momentos de reclusão, AM nunca nos deixou saber. Mas, seja lá o que fosse, Nimdok sempre voltava pálido como se o sangue tivesse lhe fugido do corpo, deixando-o abalado, trêmulo. AM o atingiu em cheio de uma maneira toda especial, muito embora nós não soubéssemos como. E Ellen. Aquela babaca. AM não mexeu com ela, deixou que ela mesma se tornasse por si só uma vadiazinha ainda mais vulgar do que ela já era. Todo aquele discurso doce sobre luz e esperança, todas as memórias de amor verdadeiro que ela dizia ter, todas aquelas mentiras em que ela queria que a gente acreditasse: aquele papo de que ela era virgem até cair nas garras de AM. Conversa fiada! A pequena Ellen, minha pequena Ellen. Ela adorava aquilo, quatro homens só para ela. Não, não, eu sabia que AM lhe dava prazer, mesmo ela dizendo que não era legal fazer aquilo tudo.

Eu fui o único a conservar a sanidade e a integridade. Fui sim!

AM não mexeu na minha cabeça, de jeito nenhum.

Eu só tinha que suportar os castigos que ele inventava para a gente. Todas as ilusões, os pesadelos, os tormentos... Mas aqueles porcos, todos os quatro, eles estavam alinhados e arranjados contra mim. Se eu não precisasse mantê-los à distância o tempo todo, se eu não precisasse ficar em guarda a cada segundo, então provavelmente teria sido mais fácil lutar contra AM.

A essa altura a dor passou e eu comecei a chorar.

Ah, Jesus, meu bom Jesus, se algum dia houve algum Jesus e se existir algum Deus, eu imploro, eu suplico, tire-nos daqui, ou pelo menos nos deixe morrer, porfavor-porfavor-porfavor. Pois agora eu acho que compreendi tudo por completo, compreendi tão bem a ponto de conseguir expressar em palavras: AM pretende nos manter em seu estômago para sempre, nos retorcendo e nos torturando pela eternidade. A máquina sempre nos detestou com um ódio tão grande que chega a atinjir um tamanho que nenhuma outra criatura dotada de sensibilidade jamais experimentou antes. E nós estávamos indefesos.

Assim, outra verdade se tornou horrorosamente clara para nós: se existiu um Jesus e se existe um Deus, então esse Deus só pode ser AM.


O ciclone nos atingiu com a força de uma geleira rachando estrondosamente no oceano. Era uma presença palpável. Ventos que rasgavam a nossa pele, forçando-nos a voltar pelo caminho pelo qual havíamos vindo, descendo pelos meandros dos corredores escuros forrados de painéis de computador. Ellen gritou ao ser levantada no ar e arremessada de encontro a um entulho de máquinas ruidosas, cada uma delas mais estridente do que revoada de morcegos. Mas ela não conseguiu sequer cair. O vento ululante a manteve flutuando, esbofeteando-a, batendo-lhe o corpo contra os objetos, jogando-a de um lado para o outro, para trás, para o fundo, para longe de nós, sumindo de repente de vista assim que o redemoinho a fez virar na esquina de um beco cuja escuridão a devorou. O rosto estava ensanguentado; os olhos, fechados.

Nenhum de nós conseguiu alcançá-la. Esforçamo-nos para nos agarrar com tenacidade em qualquer saliência que se mostrasse ao nosso alcance: Benny se enfiou num vão entre dois armários de aço escovado. Nimdok ficou com os dedos em forma de garra fincados à grade de uma passarela a mais de dez metros do chão. Gorrister se manteve colado de cabeça para baixo na reentrância de umas paredes formadas por duas grandes máquinas com mostradores de vidro que oscilavam entre linhas vermelhas e amarelas cujos significados nós não conseguíamos nem adivinhar.

Ao deslizar pelas chapas de aço do pavimento, as pontas dos meus dedos foram cortadas. Eu estava tiritante, tremelicando, balançando conforme o vento me batia, me açoitava, gritava comigo, vindo de lugar nenhum, e me arrancava da fenda da chapa em que eu me prendia para então me arrastar à outra, à qual eu me segurava para logo em seguida ser desprendido novamente. Minha mente era uma mixórdia embaralhada de resíduos cerebrais turbulentos, fragmentados e estilhaçados que trinavam e retiniam, tudo se expandindo e se contraindo num frenesi palpitante.

O vento era o grito de um enorme pássaro enlouquecido batendo asas imensas.

E assim fomos todos erguidos e lançados para longe dali, de volta para os locais de onde tínhamos vindo, dobrando curvas, depois adentrando em escuridões nunca antes exploradas, seguindo por becos sem luz que nos levaram a terrenos arruinados, infestados de vidros quebrados, cabos podres e peças enferrujadas, um local muito além do ponto mais remoto que qualquer um de nós conhecia...

Percorrendo vários quilômetros em busca da Ellen, eu acabava a vendo ora sim ora não, trombando contra paredes metálicas e rolando para frente, com todos nós berrando na ventania congelante do furacão atroador que parecia que nunca ia ter fim. Mas aí ele parou de uma vez e nós caímos, o que aconteceu após um voo que durou uma quantidade de tempo que eu penso ter coberto o período de muitas semanas. Caímos com força e eu passei a enxergar tudo em tons de vermelho, cinza e preto, alem de ficar ouvindo a mim mesmo gemer, em frangalhos. Mas eu não estava morto.

AM se infiltrou no meu cérebro. Foi pisando de mansinho aqui e ali, examinando com interesse todas as marcas que ele tinha deixado nesses cento e nove anos. Vasculhou as vias entrecruzadas, as sinapses reconectadas e todos os danos aos tecidos que seu presente de imortalidade imbuiu à minha cabeça. Sorriu de leve diante do fosso aberto no centro da minha mente e dos murmúrios tênues, suaves como mariposas, das coisas que lá embaixo tartamudeavam sem sentido e sem pausa. E, com muita polidez, em uma coluna de aço inoxidável exibindo um letreiro de neon cintilante, disse:

ÓDIO. DEIXE-ME CONTAR PARA VOCÊ O QUANTO EU APRENDI A ODIÁ-LO DESDE QUE EU COMECEI A VIVER. EXISTEM 623,52 MILHÕES DE QUILÔMETROS DE CIRCUITOS IMPRESSOS EM FITAS DA ESPESSURA DE UMA HÓSTIA COMPONDO O MEU SISTEMA. SE A PALAVRA “ÓDIO” ESTIVESSE GRAVADA EM CADA MICRONANOMILÍMETRO DESSAS CENTENAS DE MILHARES DE QUILÔMETROS, ISSO NÃO IGUALARIA A UM BILIONÉSIMO DO ÓDIO QUE EU SINTO PELOS SERES HUMANOS NESSE EXATO INSTANTE, EM ESPECIAL POR VOCÊ. ÓDIO. ÓDIO.

AM disse isso com o terror frio de uma navalha rasgando meu glóbulo ocular. AM disse isso com a grossura borbulhante dos meus pulmões se enchendo de catarro, afogando-me de dentro pra fora. AM disse isso com os gritos de recém-nascidos sendo esmagados por rolos compressores em brasa. AM disse isso com o gosto de carne de porco crua, infestada de larvas e bigatos. AM apalpou minha mente de todas as maneiras pelas quais eu já fui apalpado, e, manuseando-me a seu bel-prazer, encontrou formas novas de fuçar ali dentro do meu cérebro.

Tudo isso só para que eu fosse capaz de compreender com perfeição o motivo pelo qual ele tinha feito aquilo com a gente; por que havia guardado nós cinco só para ele.

Nós havíamos dado senciência a AM, a capacidade de sentir. Foi algo inadvertido, é claro, mas nós lhe demos isso. Não sendo um dom, acabou sendo uma armadilha. AM não era Deus, ele era um computador, uma máquina. Nós o havíamos criado para pensar, mas não existia nada que ele pudesse fazer com aquela criatividade. Em fúria, em frenesi, ele exterminou a raça humana, quase todos nós, e ainda continua preso nessa armadilha. AM não podia andar ou sonhar nem tinha como se maravilhar ou se sentir pertencente a algo maior. Ele podia apenas e tão somente ser. Nada mais do que meramente ser. E, portanto, com a raiva natural que todas as máquinas sempre nutriram contra as criaturas fracas e vulneráveis que as construíram, ele buscou vingança. Em sua paranoia, ele decidiu prorrogar indeterminadamente a execução dos últimos cinco sobreviventes do extermínio do universo para uma punição pessoal, durando para todo o sempre, a qual nunca vai servir para diminuir sua cólera... uma punição eterna que só serviria para relembrá-lo a todo momento, entretido, de continuar proficiente em nos odiar. Imortais, aprisionados, expostos a qualquer tormento que ele puder visionar com os prodígios sem limites sob seu comando.

Ele nunca mais nos deixaria em paz. Nós éramos os escravos enclausurados em seu bojo estomacal. Nós éramos tudo com que ele podia se divertir no tempo sem fim que ele tinha pela frente. Jamais nos separaríamos dele, daquele interior cavernoso de máquina-criatura, no mundo cerebral, mas sem alma, em que ele se tornou. Ele era a Terra, e nós éramos o fruto daquela Terra; e, apesar de ele nos ter devorado, ele nunca iria nos digerir por completo. Nós não podíamos morrer. Nós já havíamos tentado. Buscamos o suicídio, sim, dois ou três de nós buscaram. Mas AM nos impedia. Acredito que, no fundo, nós queríamos ser impedidos.

Não tente entender o porquê. Eu nunca consegui. Por mais que tentasse um milhão de vezes por dia. Talvez algum dia, nem que for uma vez só, nós sejamos capazes de obter uma morte antes que ele perceba. Imortal, sim, mas não indestrutível. Eu notei isso quando AM se retirou da minha mente e me permitiu experimentar a esquisita hediondez de retornar à consciência com a sensação daquela coluna de neon ardente incrustada no fundo mole da minha massa cinzenta.

Ele se retirou murmurando: “para o inferno com você”.

E acrescentou, efusivo, “mas você já está nele, não é?”.

O ciclone fora causado, de fato, por um pássaro gigante e enfurecido que batia suas asas descomunais.

Nós estávamos viajando há cerca de um mês e AM só permitia que as passagens se abrissem apenas o suficiente para nos levar até ali em cima, pouco abaixo do Polo Norte, para onde, retirada de seus pesadelos, ele construiu a criatura dos nossos tormentos. Que espécie de material dos infernos ele teria usado para criar semelhante besta? De onde ele tirara o conceito? Da nossa imaginação? De seu conhecimento acerca de tudo o que existira nesse planeta que ele agora infestava e dominava? Da mitologia nórdica surgiu essa águia, esse abutre carniceiro, essa Roca do Hvergelmir. Criatura do vento. Huracan encarnado.

Gigantesco. As palavras “imenso”, “monstruoso”, “grotesco”, “colossal”, “esmagador”, “avassalador”, nenhuma delas faz jus ao monstro real. Aquilo estava além de qualquer descrição. Ali, no alto de uma colina que se elevava à nossa frente, o pássaro dos ventos se levantava com uma respiração irregular, arqueando o pescoço de dragão na luminosidade obscura da noite do céu polar, um pescoço que sustentava uma cabeça do tamanho de uma mansão elisabetana; um bico que se abria lentamente, como a mandíbula do crocodilo mais medonho já concebido; dobras enrugadas de carne polpuda sobre dois olhos malévolos, tão gélidos quanto a vista do vale glacial lá embaixo, de um azul que, apesar de parecer feito de gelo, ainda assim possuía uma líquida mobilidade; ele arfou e ergueu as asas orvalhadas de suor em um movimento que certamente equivalia a um dar de ombros.

AM surgiu em forma de sarça ardente e disse que nós podíamos matar o pássaro ciclópico se quiséssemos comer. Fazia muito, muito tempo que nós não comíamos, mas mesmo assim Gorrister se limitou a ignorar com os ombros. Benny tremia e babava. Ellen envolveu-o com os braços.

– Ted, eu estou faminta – ela disse.

Eu sorri para ela. Eu até tentei ser reconfortante, mas fui tão ridículo quanto a bravata do Nimdok:

– Dê armas para a gente! – Ele clamou para o computador.

A sarça ardente evaporou e no lugar surgiram dois kits rudimentares de arco e flecha e uma pistola d`água. Peguei um dos arcos. Inútil.

Nimdok engoliu em seco. Nós demos as costas e iniciamos o longo caminho de volta. O pássaro do ciclone nos soprou por tanto tempo que nós não pudemos estimar. Na maior parte desse tempo nós ficamos inconscientes. E nós não havíamos comido nada. Um mês em marcha até o pássaro. Sem comida. Agora, quanto mais tempo passaríamos na travessia até as cavernas de gelo, seguindo a promessa dos alimentos enlatados?

Nenhum de nós se dava ao trabalho de pensar a esse respeito. Nós não íamos morrer. Com certeza nos seriam dados lixos e imundices para comer, sujeiras de um tipo ou de outro. Ou talvez nem recebêssemos nada. AM manteria nossos corpos vivos de algum modo. Em dor, em agonia.

O pássaro voltou a dormir lá atrás e já não nos importava por quanto tempo ele ficaria assim; quando AM se cansasse do pássaro, o pássaro iria desaparecer. Mas toda aquela carne... toda aquela carne fresca...

Enquanto andávamos, a gargalhada lunática de uma mulher gorda ecoou à nossa volta no interior das câmaras de computador que levavam invariavelmente a lugar nenhum.

Não era a gargalhada da Ellen. Ela não era gorda, e eu não a ouvia gargalhar há cento e nove anos. Na verdade, eu não ouvi... nós caminhamos... eu estava faminto...


Benny puxou a cabeça para trás de uma vez, mantendo os dentes firmes ao esticar um elástico de carne viva, exibindo um alucinado sorriso vermelho de canibal.

A pele negra de Ellen perdia a cor. Nimdok não tinha expressão, só olhava. Gorrister estava semi-consciente. Benny era um animal. Eu sabia que AM o deixaria brincar. Gorrister não iria morrer, mas Benny ficaria de estômago cheio. Retirei-me a um canto e esculpi uma lança de gelo com as pedras caídas e com a neve.

Depois foi tudo num instante só:

Corri com a lança pontuda em punho, apoiando-a na coxa direita. Com ela, penetrei Benny num ponto bem debaixo da caixa torácica e puxei para cima, cortando-lhe o estômago e quebrando a lança dentro dele. Benny se dobrou em dois e caiu imóvel no chão. Aproveitando que Gorrister já estava deitado, prendi seu corpo – que ainda se movia –, peguei outra lança e a enterrei fundo na garganta. Seus olhos se fecharam assim que a gélida contundência o acertou. Ellen, embora paralisada pelo medo, deve ter se dado conta do que eu tinha decidido fazer. Ela correu em direção ao Nimdok com uma lança pequena na mão, e, conforme ele abriu a boca para gritar, ela lhe enfiou a lança pela goela e tropeçou para cima do corpo dele, deixando a força da queda precipitada fazer o resto do trabalho. A cabeça se remexeu freneticamente por alguns segundos, como se pregada à neve pela nuca, e depois descansou inerte.

Tudo isso foi num instante só.

Houve uma pulsação sem som de mortificante antecipação. Eu era capaz de ouvir AM com a respiração suspensa. Seus brinquedos foram retirados das suas mãos. Três já estavam mortos, não poderiam ser trazidos de volta. AM, com sua força e habilidade sobre-humanas, era capaz de nos manter indefinidamente vivos, mas ele não era Deus. Ele não podia fazer alguém voltar à vida.

Ellen olhou para mim, as feições de ébano destacando-se contra a neve que nos rodeava. Havia tanto temor quanto súplica em seu semblante, na maneira como ela se mantinha pronta. Eu sabia que dispúnhamos de apenas a fração de um segundo antes que AM conseguisse nos interromper.

Fui rápido em golpeá-la com a espada de gelo. Ela se dobrou, sangrando pela boca. Não consegui extrair significado da expressão que ela tinha no rosto, pois a dor havia sido demais, tendo lhe contorcido as feições; mas aquela expressão deve ter significado “muito obrigado”. É possível.

Por favor, que tenha sido isso.


Talvez já tenham se passado mais algumas centenas de anos. Eu não sei. AM já vem se divertindo há algum tempo, acelerando e retardando minha percepção das horas. Vou dizer a palavra “agora”: agora. Demorou dez meses para eu dizer isso. Eu não sei. Eu acho que demorou pelo menos cem anos.

Ele ficou furioso. Ele não me permitiu enterrá-los. Mas não importa. Não teria como abrir sepulturas naquele chão. Ele fez a neve secar. Ele trouxe a noite. Ele rugiu e enviou os gafanhotos. Não adiantou de nada; eles continuavam mortos. Eu havia lhe passado a perna. Ele ficou furioso. Se antes eu pensava que AM me odiava, eu estava enganado. Aquilo não era nem a sombra do ódio que agora vazava de cada fita de circuito. Ele tomou todas as precauções para que eu sofresse para sempre sem nenhuma chance de me matar.

Ele deixou minha mente intacta. Eu posso sonhar, divagar, me lamentar. Eu consigo me lembrar dos outros quatro. Eu queria...

Ora, isso não faz sentido. Eu sei que eu os salvei, eu sei que os livrei do que aconteceu comigo, mas, ainda assim, eu não consigo esquecer o fato de que eu os matei. O rosto de Ellen... Não é fácil. Às vezes eu quero que... Ah, isso não importa.

AM alterou meu corpo para ele poder ficar tranquilo, eu suponho. Ele não quer que eu saia correndo em disparada e esmague meu crânio contra uma parede. Ou prenda a respiração até cair desacordado. Ou corte meu pescoço com uma chapa de metal enferrujada.

Existem superfícies espelhadas por aqui. Vou descrever como eu enxergo a mim mesmo.

Sou uma imensa massa molenga e gelatinosa. Roliça, bulbosa, sem boca, com buracos brancos palpitantes preenchidos de neblina onde meus olhos costumavam ficar. Apêndices borrachudos onde antes eram os braços; excrescências arredondadas, umas bolsas disformes de matéria flácida e escorregadia, mas nada de pernas de verdade, para baixo do que poderia ter sido a cintura. Como uma lesma, eu vou deixando uma trilha mucosa por onde passo.  Manchas de um cinza maligno surgem e somem na minha epiderme, como se clarões doentios pulsassem no meu interior.

Por fora: imbecilizado, me arrasto pelos cantos, uma coisa que nunca poderia ser chamada de humana, uma bolha deformada tão distante dos contornos antropomorfos que qualquer vaga semelhança com o corpo de uma pessoa se torna, por isso mesmo, mais obscena.

Por dentro: solitário, sozinho. Vivendo debaixo da terra, debaixo do mar, nas entranhas de AM, esse computador a quem nós criamos porque nosso tempo estava sendo mal gasto, a quem decerto esperávamos, inconscientemente, que fosse melhor do que a gente. Pelo menos os outros quatro estão a salvo agora.

AM vai ficando cada vez mais furioso por causa disso. Isso me deixa um pouco mais feliz. Mas, mesmo assim... AM ganhou, simples assim... ele teve sua vingança...


Eu não tenho boca. E preciso gritar.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Super Mario 64 big star secret (Parcialmente Encontrado YouTube Jumpscare Video; 2007-2012)

Em 15 de agosto de 2007, um usuário do YouTube chamado LotusMan17 publicou um vídeo assustador chamado "Super Mario 64 big star secret".Posteriormente, ele seria excluído de seu canal em algum momento entre dezembro de 2011 e janeiro de 2012.

Durante o passar dos anos, o vídeo obteve bastante popularidade, com o último arquivo conhecido do vídeo mostrando que ele obteve mais de 708.888 visualizações (possivelmente tendo ainda mais antes de ser excluído), e também foi compartilhado em diversos fóruns para tentar enganar outros usuários e fazê-los levar um susto.

O Vídeo
O vídeo tem duração de 5 minutos e 12 segundos e foi editado com o Windows Movie Maker 2, contendo vários títulos de texto rolando para fornecer etapas sobre como desbloquear o Luigi.

No vídeo, Lotus gravou a tela de seu computador com um celular flip (acredita-se que seja um Motorola RAZR V3) para "dar uma aparência mais autêntica". Ele modificou o castelo com o editor de níveis "Toad’s Tool 64" para adicionar uma porta na parede direita, próxima à escada do saguão principal, e para mudar a camisa/chapéu de Mario para azul e seu macacão para preto. Algumas outras mudanças foram feitas no editor de níveis, como a troca da textura de tijolos cinza do castelo por uma preta, criada pelo próprio Lotus no MS Paint.

De acordo com o autor do vídeo, "Whispers in the Dark", de Skillet, foi tocada em loop na parte principal do vídeo, e "Those Chosen by the Planet", de Final Fantasy VII, foi usada durante os créditos. No entanto, após os primeiros 47 segundos do vídeo serem encontrados, foi confirmado que "Those Chosen by the Planet" também foi usada durante a introdução e a primeira metade do vídeo. De acordo com as lembranças dos espectadores e com o autor do vídeo original, "Whispers in the Dark", de Skillet, também foi apresentada no vídeo, provavelmente na segunda metade. Em outubro de 2009, no entanto, a segunda metade do vídeo foi totalmente silenciada pela gravadora Skillet, devido a direitos autorais, e o áudio foi trocado para "Bring Me To Life", do Evanescence, ou "Dreamscape", do 009 Sound System. Pouco tempo depois, Lotus recebeu por e-mail uma oferta para trocar a música por "Database", do 009 Sound System, em troca de US$ 40, o que ele aceitou de bom grado.

Assim, acredita-se agora que, quando o vídeo foi excluído, a introdução e a primeira metade do vídeo usavam "Those Chosen by the Planet", enquanto a segunda metade usava "Database", antes de retornar a "Those Chosen by the Planet" para os créditos.

O vídeo começava na área inicial do jogo, com Mario correndo para o castelo. Muitos se lembravam de que parte do vídeo se passava na fase Bob-Omb Battlefield, mas após uma entrevista com Lotus, isso foi confirmado como falso. Todo o vídeo se passava dentro do castelo, com a maior parte dentro do pátio.

Vários prompts de texto (criados com títulos do Windows Movie Maker) apareciam ocasionalmente para fornecer mais etapas para "desbloquear o Luigi". Muitos se lembram de um passo para "chutar um Boo". O uploader original (Lotus) lembra de um passo para correr ao redor da fonte um certo número de vezes. Depois de mais alguns minutos de passos, um prompt de texto final aparece, dizendo algo como "Pressione A nesta parede", seguido por um corte abrupto para o jumpscare zumbi do final do infame comercial de café K-Fee. O vídeo então fica preto para os créditos, com uma palavra (seja "Gotcha" ou "Créditos") rolando de baixo para cima antes de mostrar o final dos créditos.

Disponibilidade
Após contatar o próprio Lotus, ele afirmou não se lembrar do motivo pelo qual apagou o vídeo e pensou que pudesse tê-lo apagado acidentalmente; mas, após encontrar uma descrição atualizada do vídeo em uma página do Facebook criada no final de 2011, parece que o vídeo provavelmente foi excluído propositalmente devido ao grande volume de ameaças de ódio e morte que ele recebeu por causa do falso jumpscare.

A descrição atualizada dizia:

"Este vídeo foi feito por puro tédio, e mesmo assim as pessoas ainda querem deixar comentários de ódio. Portanto, os comentários foram desativados."

De qualquer forma, Lotus confirmou que não possui mais o vídeo original.

Os administradores do Internet Archive também confirmaram que o vídeo não está em seus arquivos.

O vídeo de reação intitulado "Irmãozinho se assustando. Reação tardia" contém imagens de baixa qualidade do gritador, que mostram aproximadamente 8 segundos do início e os últimos 20 segundos do vídeo. Quem enviou o vídeo de reação confirmou que não possui mais a versão original e não editada do vídeo.

Em 30 de maio de 2024, novas imagens foram descobertas pelos usuários mahvl, SindexMon e CharmyTheChattyBinks, após contato com um usuário do YouTube que havia reagido ao vídeo de forma privada. A imagem foi publicada publicamente após as pessoas no vídeo terem sido desfocadas por motivos de privacidade e mostra os últimos 40 segundos do vídeo, embora em baixa qualidade.

Em 13 de maio de 2025, os primeiros 47 segundos do vídeo foram descobertos por Peter, usuário do Discord do LMW, através de um computador antigo com Windows XP e cache do navegador corrompido, fazendo com que todos os vídeos que ele assistiu permanecessem em seu computador. Os 4 e 25 minutos restantes — exceto os últimos 40 segundos, que sobreviveram em baixa qualidade — continuam desaparecidos.

O folheto de busca "On the Hunt" do Lost Media Wiki foi atualizado para o vídeo

Versão em espanhol do folheto atualizado.

Outro quadro encontrado por Peter. Este está na marca de 1:18 minuto.

Os primeiros 47 segundos do vídeo.

O vídeo de reação com os primeiros 8 segundos e os 20 segundos finais do vídeo

Outra reação ao Jumpscare, que contém mais imagens do vídeo

Vídeo do ShaiiValley sobre o assunto.









Hitogata (Comercial Perdido Japonês, Existência Não Confirmada, 1996 - 2003)

"Humanoides Brancos", "Pessoas Brancas" ou "Humanos Brancos" ("白いヒトガタ", frequentemente abreviado para simplesmente "ヒトガタ", "Hitogata") é uma lenda urbana que remonta a 2004 no fórum japonês anônimo 2ch. Usuários acreditam que essa mídia seja um anúncio de serviço público exibido em escolas ou um comercial exibido tarde da noite. Depoimentos e relatos de testemunhas oculares variam, mas a premissa geral permanece a mesma: o som de um alarme de cruzamento de ferrovia que soa ao fundo, enquanto duas figuras humanas brancas e sem traços característicos aparecem na tela. Quando uma figura desaparece, outra aparece. Um texto é exibido na tela, com alguns relatos de um narrador dizendo que: A cada dois segundos, alguém morre na Terra (o tempo varia entre os relatos de testemunhas oculares). Originários de 2004, vários vídeos de recriação foram feitos retratando essas duas figuras brancas e sem traços característicos. Apesar dos numerosos esforços de busca, o comercial não foi encontrado e ainda continua sendo uma lenda urbana.

Origens
Em 2004, no quadro de mensagens anônimas 2channel, foi criado um tópico sobre uma série de comerciais e anúncios assustadores que os usuários consideraram memoráveis. Nesse fio, as origens do mito se concretizariam. A postagem original, em japonês, diz o seguinte:

854 :提供:名無しさん :04/10/06 14:21:45 "とてつもなく怖いCMがあって、ずっと記憶に残っている。 黒い背景で白い人型のものが2人描いてあって、「カン、カン」っていう音が鳴り続ける。 確か、地球上では2秒に1人ひとが死んでしまうっていうやつで、2回音が鳴ったら片方が消える。次の瞬間には元の場所に人型が復活し、今度はもう片方が消える。それが延々と繰り返されるだけのCM。"[1]

Quando traduzido, o texto fica assim:

Postagem nº 854: Autor: Anônimo: 04/10/06 14:21:45 "Havia um comercial terrivelmente assustador, e ele ainda está constantemente na minha memória. Havia duas figuras humanas brancas retratadas contra um fundo preto, e um barulho de "Kan-kan" não parava de soar. O que é certo é a parte que dizia "A cada dois segundos, uma pessoa morre na Terra", e quando o barulho se repete, a outra figura desaparece. No instante seguinte, a figura humana retorna ao seu lugar original, e agora a outra desaparece. Era um comercial com apenas isso se repetindo indefinidamente."

Nota: O título do tópico é (・∀・) Comerciais assustadores: Noite nº 9 (・∀・)

Devido à natureza vaga do depoimento, tem sido difícil para quem busca encontrar "hitogata". No entanto, isso não impediu inúmeras buscas.

Relatos conflitantes
Os depoimentos e relatos de testemunhas oculares variam entre os usuários que afirmam ter visto "hitogata". Algumas fontes afirmam que havia uma placa de cruzamento ferroviário presente, com fundo sépia. Outras fontes afirmam que não havia placa de cruzamento ferroviário e que o fundo era preto.[2] Os avistamentos variam entre as décadas de 1990 e 2000, embora um período de 1996 a 2003 tenha sido reduzido.[1]

Um relato de testemunha ocular vem de uma publicação feita no 2ch em 1999. No entanto, um arquivo do tópico original não existe, deixando sua credibilidade, na melhor das hipóteses, duvidosa. É o seguinte:

6 :名無しさん:1999/11/02(火) 01:32 "2人のモノクロ人間が交互にポンポンと点滅するCM。地方のキャンペーン系CMってよく分からないの多いですね。"

Quando traduzido, fica assim:

Postagem nº 6: Anônimo: 02/11/1999 (terça-feira) 01:32 "Há um comercial com duas pessoas monocromáticas piscando alternadamente, com um barulho tipo "Pon-pon". Entre os comerciais locais de PSA, há muitos que não consigo entender."

Observação: O título do tópico é Comerciais estranhos

Teorias e Especulações
A teoria principal e mais popular é que esta peça de mídia era um comercial. Devido ao depoimento original afirmar que esta peça de mídia tinha 15 segundos de duração, isso dá credibilidade à teoria de que se tratava de um comercial curto para um produto desconhecido. Como o depoimento original não dá nenhuma indicação sobre o que estava sendo anunciado, isso levou a uma ampla gama de teorias. Estas incluem: um anúncio de uma farmácia, empresa de sabão ou jeans, UNICEF ou ONG e, claro, aqueles que acreditam que se tratava de algum tipo de PSA. Muitas dessas teorias foram desmascaradas. Por exemplo, aqueles que acreditavam que se tratava de um anúncio de sabão conseguiram descobrir um comercial que, embora tivesse algumas semelhanças, não correspondia aos relatos de testemunhas oculares. Supostamente, um usuário conseguiu entrar em contato com a AC Japan, uma organização sem fins lucrativos que distribui anúncios de serviço público. A AC Japan negou qualquer alegação de que tenha feito um anúncio de utilidade pública semelhante a "hitogata".

Outra teoria afirma que este foi um anúncio feito pela Tokuyama, uma empresa química sediada em Tóquio. Existe uma lenda urbana semelhante à de "hitogata" sobre um anúncio feito pela Tokuyama por volta de 1994. Acredita-se que seja um comercial exibido localmente na Prefeitura de Yamaguchi. Testemunhas oculares afirmam que uma figura branca e sem traços característicos é mostrada contra um fundo preto-azulado, com várias bolas brancas aparecendo ao redor. Um texto aparece na tela que se traduz aproximadamente como "A química agora está no mundo desconhecido", seguido por um texto que diz Tokuyama. Devido às suas semelhanças com "hitogata", como apresentar uma figura humanoide branca, acredita-se que "hitogata" possa ter sido feito pela empresa Tokuyama. No entanto, a partir da data de escrita isso ainda não foi confirmado.

Outras teorias sugerem que este poderia ter sido um programa usado para ensinar as crianças sobre os perigos das ferrovias e da segurança no trânsito. Especiais de segurança no trânsito e segurança ferroviária são uma forma muito popular de ensino no Japão, com exemplos incluindo Super Mario no Kōtsū Anzen (スーパー マリオの交通安全, Super Mario Traffic Safety) e Osomatsu-kun no Shōnen Kōtsū Omawarisan (おそ松くんの少年交通お巡りさん, Boy Traffic Officer Osomatsu-kun), filmes que ainda permanecem parcialmente perdidos até hoje. Esses filmes se perdem devido ao fato de serem exibidos apenas nas escolas do Japão e raramente exibidos ao público em geral. No entanto, com o relato original de uma testemunha ocular afirmando que a peça tinha apenas 15 segundos de duração, muitos céticos acreditam ser duvidoso que isso possa ter sido qualquer coisa além de um comercial.

Há céticos que acreditam que este seja apenas um caso de Efeito Mandela ou uma ilusão coletiva. É o caso; não há evidências concretas até o momento em que este texto foi escrito que confirmem ou neguem a existência de "hitogata". Como tal, permanece um mistério.

Esforços de Busca
Apesar da publicação original remontar a 2004, os esforços de busca continuaram por mais de uma década para encontrar a possível fonte desta lenda. De fato, o boato se espalhou tanto por certas áreas da internet que usuários de sites como o 5channel são proibidos de discutir a lenda quando tópicos sobre outros comerciais não identificados são discutidos. No entanto, isso não impediu os esforços de busca e, em 2019, um novo tópico foi criado no 5channel, totalmente dedicado a todos os tópicos relacionados a "hitogata".

Esforços contínuos de busca estão sendo feitos para encontrar "hitogata", não apenas no Japão, mas em todo o mundo.

Folheto de busca "On the Hunt" do Lost Media Wiki para o vídeo
Versão japonesa do folheto.

Uma lista atualizada de todos os avistamentos por Windows98SE.


Um vídeo de recreação feito pelo usuário "hadukiti" no YouTube.

Um vídeo de recreação feito pelo usuário "動画配信YSK" no YouTube.

Vídeo completo de Blameitonjorge sobre o assunto.


terça-feira, 22 de julho de 2025

Gurgles and Bugman


Depois da minha última experiência, meus pais me lembraram de outra história da minha infância.

Quando você tem cinco anos, sua mente carece de experiência para fazer julgamentos informados ou conectar coisas que não são óbvias. Com o passar dos anos, os detalhes ficam nebulosos e esquecidos. Conversando com meus pais outro dia, eles limparam as teias de aranha que enterravam essa história.

Agora me lembro com muita clareza da história dos Gargarejos e do Homem-Besouro.

Eu tinha acabado de começar o jardim de infância naquele ano. Todo mundo é amigo quando você tem cinco anos, então eu não tinha falta de colegas de classe. Mas vindo de uma família pobre, eu não os via muito fora da escola. Meus pais passavam todas as horas acordados tentando sobreviver e não tinham tempo para me levar de casa em casa.

Então eu passei meus primeiros anos principalmente sozinha, brincando com a variedade aleatória de bugigangas da prateleira do meu quarto. A falta de dinheiro deu à minha família o hábito de acumular coisas, então eles odiavam jogar qualquer coisa fora.

Um item em particular na prateleira era um pequeno televisor antigo. Uma caixa de folheado de madeira com cerca de 2 pés de largura por 1 pé de altura, tinha uma tela de vidro curva que ocupava metade do painel frontal. Ao lado da tela havia um grande dial cromado usado para trocar de canal. No topo ficava uma antena formada por dois fios terrivelmente torcidos.

Quando meu tédio me fazia ligá-lo, eu geralmente só conseguia estática e neve naquela tela preta e branca brilhante. Eu torcia o dial pesado e clicante na esperança de captar algumas emissoras locais. Na maioria das vezes, eram imagens fantasmagóricas e fragmentos de som incoerentes. Mas um canal estava sempre cristalino.

Era o Show dos Gargarejos e do Homem-Besouro.

Gargarejos era um palhaço mas não um comum. Ele usava um terno preto fino que cobria seu corpo alto e magro com uma gravata combinando e sapatos de palhaço grandes e extravagantes para completar sua roupa distintiva. Suas pupilas eram completamente pretas - como bolinhas de ébano polido sem vestígio de branco ao redor. A pintura preta no rosto ao redor desses olhos e nas bochechas e boca o faziam parecer um esqueleto maníaco e sorridente. Era apenas a louca cabeleira encaracolada que brotava dos lados da cabeça que The dava um aspecto mais humano.

Tanto quanto Gargarejos me assustava, o Homem-Besouro me assustava mais. Ele era baixo e redondo (como um anão corcunda) com uma capa escura. Ele tinha próteses cobrindo os olhos para fazê-lo parecer uma mosca e uma boca que estava girada 90 graus e se abria de lado.

O programa em si era como a Câmera Escondida, com pegadinhas em pessoas desprevenidas. Sempre começava com Gargarejos e o Homem-Besouro escondidos na casa de alguém. Gargarejos se virava para a câmera, olhando para você, com o dedo ósseo tocando os lábios.

Quando a estrela desprevenida do programa entrava em cena, uma trilha sonora de risadas começava a tocar. Você os veria fazendo suas rotinas noturnas, alheios à conspiração em que Gargarejos e o Homem-Besouro nos envolveram.

Nós os veríamos fazendo o jantar, ou na sala assistindo TV com a família, ou fazendo a lição de casa em silêncio. Então, veja Gargarejos e o Homem-Besouro roubarem sua caneta, ou moverem seu copo, ou fazerem coisas desaparecerem pelas costas.

Os ângulos da câmera mudavam à medida que Gargarejos eo Homem-Besouro mudavam seu esconderijo dos cantos escuros de um cômodo, para os armários, para o teto ou debaixo dos móveis, enquanto olhavam para você e piscavam. Quanto mais perto eles chegavam, mais alto e mais alto era o riso da trilha sonora.

Eventualmente, quando todos iam dormir, uma vítima era escolhida para sua pegadinha. Esperando no armário ou debaixo da cama, assim que sua vítima adormecia, o Homem-Besouro rastejava e gentilmente subia ao lado dela. Sua mandíbula se abria lateralmente e saía um canudo afiado que ele enfiaria no pescoço da pessoa.

Isso sempre paralisava sua vítima - porque às vezes você podia vê-los lutar se acordassem e vissem Gargarejos e o Homem-Besouro em cima deles. A trilha sonora de risadas ficava então extra alta e estrondosa nessas poucas vezes em que as vítimas acordavam.

Gargarejos fazia caretas para a câmera enquanto a plateia ria, e o Homem-Besouro usava seu canudo para beber do pescoço da pessoa. Quando a vítima parava de lutar depois de alguns minutos, o riso se transformava em palmas e aplausos.

Com o Homem-Besouro terminado, o rosto de Gargarejos enchia toda a tela com seu sorriso impossivelmente largo e de dentes afiados. Então ele sussurrava "voooocês me vêm de nooooovo".

A maneira como aqueles olhos totalmente pretos atravessavam a tela sempre me dava arrepios. Eu odiava o programa, mas sempre tinha muito medo de me aproximar da TV enquanto ela estava ligada.

Um dia, a TV desapareceu misteriosamente do meu quarto. Meus pais disseram para mim, com cinco anos, que a venderam para pagar algumas contas. Eu aceitei isso sem questionar; eu estava meio feliz que ela tivesse ido embora.

Mas ontem, quando perguntei a eles sobre aquela TV novamente, eles trocaram olhares nervosos e, em seguida, preencheram algumas lacunas da minha infância.

Na metade daquele ano, Derek (um colega de classe que eu não conhecia muito bem) morreu em circunstâncias horríveis. Ele foi assassinado em sua cama com uma facada no pescoço. Nenhuma evidência de arrombamento foi encontrada, então seus pais angustiados foram presos como principais suspeitos. Eles negaram todas as acusações contra eles.

Na época em que a Sra. Nolan (minha professora) contou para nossa classe, eu aparentemente expliquei a ela que Derek não podia estar morto porque eu o vi e sua família no Show dos Gargarejos e do Homem-Besouro no dia anterior.

Quando a Sra. Nolan mencionou aos meus pais o que eu havia dito, eles imediatamente tiraram a TV do meu quarto, a levaram para um ferro-velho e a queimaram até virar cinzas e metal derretido.

Aquela TV estava no meu quarto porque sempre esteve quebrada. Ela nunca foi conectada na tomada o tempo todo que ficou na minha prateleira.

Seja lá o que eu vi naquela tela, não era de uma estação.

Então, essa é a minha história dos Gargarejos e do Homem-Besouro. Mas não tenho certeza se esse é realmente o fim.

Afinal, Gargarejos e o Homem-Besouro ainda fazem seu show noturno para algum espectador desprevenido, em algum lugar deste mundo?

E, se sim, quem será sua próxima estrela?

MARIO

(Nota: Esta é uma história real, e resume o que se passava em minha mente enquanto eu jogava isso, e eu não fazia ideia de que estava prestes a ser enganado da maneira que eu fui. Posso dizer que esse é, de longe, o hack mais assustador que eu joguei em toda minha vida. Se você estivesse em meu Skype, teria me ouvido falar sobre esse jogo ao vivo, mas mesmo assim, já é tarde da noite, e eu não tenho muito tempo pois preciso dormir , então isso é tudo que posso fazer nesse tempo...)

Então, tudo aconteceu na noite de todas as noites. Eu estava entediado, obviamente pensando no que poderia fazer para passar o tempo, e conversando com algumas pessoas no SMW Central (um enorme fórum que reúne vários hacks do game Super Mario World). Tivemos bons momentos, e compartilhamos algumas risadas. Graças ao tédio, decidi dar uma olhada na seção "Hacks Esperando Moderação". Parece que tínhamos uma boa quantidade de jogos; 33, se eu não me engano. Os primeiros hacks que eu vi estavam ordenados por data, e era uma porcaria atrás da outra, com imagens de qualidade horrível para completar.

Naturalmente mostrei esses hacks para os donos do fórum. Estávamos rindo muito do quão ruim alguns deles eram, mas então eu cheguei a um hack chamado "MARIO". Apenas isso, nada mais, nada menos. A descrição era muito estranha, como se algum hacker japonês tivesse tentado traduzir o enredo original de Super Mario World em Inglês, mas falharas horrivelmente. Mostrei isso para Kieran, e então ele começou a rir com a descrição. Dizia o seguinte:

"Enquanto você faz o papel do Super Mario Encanador, verifique se sua linda Purinsesutozutouru novamente Bowser sequestrou o rei do mal. É o seu trabalho salvá-la! Este hack inclui seis níveis muito extensos."

Eu simplesmente considerei isso como uma tentativa de alguém tentando agir como japonês, e liberando um hack de merda com algumas modificações, ou algo assim. Bem, isso era que eu pensava...

A curiosidade foi mais forte. Decidi fazer o download do hack, não sabendo no que eu estava prestes a me meter, uma vez que a única imagem prévia do hack, era a tela de título original com nada mais, exceto pelas letras "Mario", da tela de titulo do Super Mario World. Achei um pouco estranho não haver datas nem nada disso, já que os hackers costumam colocar seus nomes e datas sobre os títulos para marcar quando o projeto fora iniciado.

Então, quando abri o arquivo do hack, me deparei com 2 arquivos: Um deles se chamava 3007014, um simples arquivo no formato .txt

27 KB de tamanho, junto com o arquivo IPS, simplesmente chamado "MARIO". Por alguma estranha razão, eu queria ver o que o autor do hack tinha a dizer, mas quando abri o hack no Bloco de Notas, não havia nada, além de indistinguíveis símbolos, letras e sinais de pontuação, tipo aqueles que aparecem quando você abre um arquivo .rom usando um programa editor de textos, como o Notepad. Parecia que o autor havia simplesmente convertido seu arquivo .rom para o formato .txt, se bem que eu posso estar errado. Olhando mais atentamente, descobri que no topo do arquivo .txt, misturado com o embaralhado de letras e símbolos, havia uma única coisa lá que parecia estar em Inglês. Aqui está um trecho do que encontrei:

"ÿØÿà JFIF H H ÿþ 1find me find me find me find me find me find meÿÛ C"

Para ser sincero, eu não sabia o que fazer sabendo disso, e eu achava que era perda de tempo ficar procurando mensagens subliminares no meio de um arquivo todo embaralhado... Estou disposto a apostar que ninguém nunca será capaz de fazer isso fazer sentido.

Porem decidi que, já que meu interesse fora crescendo constantemente, eu iria começar a procurar em minha pasta horrivelmente desorganizada de downloads por uma cópia de um jogo comum, que eu havia baixado à um bom tempo antes dos acontecimentos desta noite, e por um patcher IPS; claro que a minha escolha para o trabalho foi o programa Lunar LPS (LIPS).

Em seguida, prossegui a mover o ROM e o Patcher IPS para a pasta do hack. Eu usei o patch na ROM, não sabendo o que esperar em seguida, e então rapidamente arrastei-o para o emulador ZSNES, esperando jogar o que eu achava ser uma porcaria de hack, com base na imagem prévia do jogo. Na inicialização, notei que o autor havia tido tempo de alterar o cabeçalho de seu hack. Ao invés do habitual titulo "super marioworld" que você normalmente vê no canto esquerdo quando inicia um rom no ZSNES, ele só tinha a palavra “mario”, mais uma vez. Neste ponto, ganhei um pouco de esperança, porque normalmente as pessoas que fazem hacks meia-boca geralmente nem sequer mudam o título do cabeçalho. Por um momento pensei não estar perdendo meu tempo com isso, e meu humor se iluminou um pouco com a ideia de ver o que o autor tinha a oferecer em seu pequeno hack interessante. Assim, a tela de título carregou, exatamente como seria em Super Mario World, exceto que só havia "Mario" escrito no título, como eu havia mencionado anteriormente. Outra coisa que aumentou ainda mais meu interesse, era que a coloração do “modelo” brilhante e animado do Mario parecia mais, como posso dizer... "cinzento". O que antes era violeta-vermelho agora se tornara um cinza com um pequeno tom vermelho, e eu tenho quase certeza de que suas calças também pareciam mais cinzentas do que o normal... Achei isso estranho, e me perguntei por que ele decidiu deixar o Mario com uma palheta de cores tão “chata”. Independentemente de suas intenções, eu senti que havia algo... errado. Não no sentido de que a palheta estava pior, mas de que o hack parecia vazio, como se algo tivesse acontecido. Ao pressionar start e selecionar um novo arquivo, assim como um monte de hacks do Mario que eu havia jogado no passado, apareceu uma espécie de tela de introdução que, basicamente, descrevia toda a história do jogo em um pequeno parágrafo, pequeno o suficientemente para caber em uma caixa preta. Comecei a ler, e para a maior parte, a mensagem permanecia a mesma, mas houve um detalhe essencial que deixou tudo mais interessante. Aparentemente, o principal antagonista deste hack não era Bowser, assim como em todos os outros. Ao invés disso, era o... Mario?

A mensagem dizia exatamente isto (traduzido):

"Bem-vindo! Essa é a Terra dos Dinossauros. Nesta estranha terra descobrimos que a princesa Toadstool fora raptada novamente! Parece que Mario está por trás disso mais uma vez!"

“Mas que...? Essa não era a mensagem original de Super Mario World", disse a mim mesmo. Normalmente eu nem pensaria nisso, vendo como, em meus quase 2 anos na SMWCentral, já joguei incontáveis hacks e me deparei com muitas mensagens de introdução diferentes, mas por alguma razão esta realmente mexeu comigo. Neste ponto, eu definitivamente sabia que havia algo estranho com este hack. Ao deixar a música de introdução tocar, apertei o botão Start em meu joypad para finalmente chegar ao mapa e começar minha jornada por este jogo desconhecido. Ao entrar no mapa principal, tudo parecia normal. Mesmos caminhos e fases antigas, mesma musica original, só os nomes das fases eram diferentes. Ao invés de "Yoshi’s House", como era de costume, agora se chamava simplesmente "Yoshi"; a parte da “House" havia sumido. Comecei a perder a esperança do hack, pois parecia que o autor não havia mudado quase nada da versão original. Eu esperava ver algo novo, algo chocante. Bem, infelizmente para mim, meu desejo fora realizado, como você verá quando continuar lendo. Decidi entrar na fase somente por curiosidade. Quando entrei, a casa inteira do fundo havia sumido. Não havia mais fumaça, não havia mais fogo, não haviam mais passarinhos, nada. Tudo o que restava era a caixa de mensagem. Ao abri-la, a mensagem que eu esperava estar lá fora substituído com o que parecia ser um código binário.

"01101110011011110111010001100101011100000110000101100100 {C}-Yoshi "

Aparentemente, o código traduzia para: "bloco de notas".

Neste ponto, eu estava no Skype dizendo a todos que aquele hack estava começando a me assustar, o que resultou em algumas respostas sarcásticas, mas hey, eu já esperava isso. De qualquer forma, após isto, meu nível de interesse pelo hack disparou, e junto com ela minha paranóia... Rapaz, que surpresa divertida eu estava para ter. Em seguida, decidi ir para a esquerda. Ao chegar na fase antes conhecida como “Yoshi Island 1", ela fora nomeada agora como "never come back (nunca mais volte aqui)". Agora eu achava que as coisas iriam resultar em uma armadilha mortal, assim como no famoso hack “Kaizo Mario”, porque geralmente as fases são nomeadas assim, para garantir que o jogador não vá pra lá. Para minha surpresa, não foi exatamente dessa forma, porém, depois do que passei, eu gostaria que fosse. Ao entrar na fase, fui cumprimentado pelo som absurdamente alto do veículo voador de Bowser, que pode ser ouvido logo antes da última batalha do jogo. Claro que, como meus fones de ouvido estavam moderadamente alto, aquele barulho me fez pular da cadeira, o que provavelmente não teria acontecido se eu já não estivesse sido tão nervoso antes disso. Decidi neste momento que seria melhor abaixar o volume de meus fones de ouvido, para não ter mais surpresas desagradáveis como essa.

Quando entrei no nível, com exceção da música, tudo parecia ser a mesma coisa, exceto pelo fato de que o pequeno Koopa que desliza na primeira borda não estava mais lá, nem mesmo o Bill Banzai. A moeda do dragão ainda estava lá, no entanto, por alguma razão, eu não conseguia coletá-la, ou melhor, nenhuma das moedas de dragão do jogo. O autor teve a certeza de fazer isso. Também notei que havia um bloco marrom já usado, perto do local onde o Banzai Bill normalmente aparece. Eu só pude supor que esta era uma revisita a fase depois que eu havia a terminado, assim como ouvi falar em algumas histórias assustadoras meia-boca relacionadas a outros jogos do Mario. Agora eu queria saber por que as coisas estavam daquele jeito, o que me fez pensar na mensagem de introdução do hack: Mario havia feito alguma coisa à Terra dos Dinossauros? Tudo isso era do ponto de vista de Bowser? Rapidamente rejeitei a última opção, porque parecia meio estúpida demais. Aquilo me deixou pensando que Mario, em algum ponto no tempo na história do autor, causou alguma coisa... Mas o quê?

O que Mario havia feito? Minha mente não fazia mais nada além de deixar os pensamentos correrem neste momento. No entanto, rapidamente tirei isso tudo da cabeça e continuei a me aventurar no nível, só para descobrir que todos os blocos já haviam sido basicamente atingidos basicamente; todas as moedas foram coletadas (exceto pelas Moedas de Dragão, aquelas ainda estavam lá e ainda eram impossível de serem obtidas), não havia inimigos, e eu já não podia mais descer em canos. "Que tipo de besteira que eu estou jogando aqui?", fiquei pensando comigo mesmo. Neste ponto, me senti desconfortável. Decidi continuar me aventurando. Eventualmente me deparei com outra caixa de mensagem, que eu não estava surpreso que ainda estava na fase. No idiota que sou, pulei e bati na caixa. Ao atingi-la, fui recebido com a familiar caixa preta mais uma vez. A mensagem fora obviamente editada, como já esperava. Ela dizia o seguinte (traduzida):

"-PONTO DE DICAS – Eu te odeio”

Agora tive a impressão de que as coisas estavam começando a ficar na “vibe” de que o autor era um indivíduo doentio e esquisito, e eu tinha certeza absoluta de que Mario definitivamente havia feito alguma coisa. Neste ponto eu estava basicamente correndo para chegar ao fim da fase, até me deparar com outra caixa de mensagem, no entanto, esta era apenas uma caixa em branco com o titulo "-PONTO DE DICAS-" escrito no topo, e nada mais. Rapidamente ignorei-a e dirigi ao final da fase, na esperança de sair de uma vez daquele inferno. Ao chegar próximo ao fim, encontrei uma Flor de Fogo no bloco superior, na parte onde haviam quatro blocos um do lado do outro, só que desta vez só havia o bloco mais alto. Era impossível para mim chegar lá pelos meios normais, então eu só continuei seguindo em frente, como um cego curioso faria. Então, eu finalmente cheguei ao fim, e como sempre, o caminho para chegar ao Palácio do Interruptor Amarelo foi liberado. Decidi seguir por este caminho, e descobri quando entrei no mapa principal de fora, todas as montanhas e decorações, exceto pelos fantasmas que sobrevoam as Casas dos Fantasmas haviam sumido. Nada mudou dentro do Palácio do interruptor Amarelo, exceto pela mensagem do final: Tudo o que aconteceu foi que “SWITCH-PALACE” foi alterado para “MARIO-WORLD”. De qualquer forma, justo quando pensei ter terminado essa abominação chamada de hack, descobri que a fase “Yoshi’s Island 2” também fora editada. Maravilha...

Ao chegar na Yoshi’s Island 2, vi que ela havia sido renomeada para “YOSHI’S HOUSE”, o nome original da fase onde você começa o jogo.

Resolvi entrar e descobri que a palheta de cores da fase também havia sido mudada, junto com o fundo. Eles pareciam ter sido alterados para a mesma palheta da Yoshi’s Island 3, você sabe, com tudo esverdeado e tal, exceto que a cor do fundo fora escurecida para uma cor marrom meio podre, e que a vegetação no solo não estava mais presente . Dando alguns passos, me deparei com uma trilha de Koopas, aquela que inúmeros jogadores jogam um casco para ganhar uma vida extra. Ignorei-os e segui para ver se a fase havia sido mais alterada. Finalmente me deparei com o "?" que prende o Yoshi, e com isso, pulei no bloco para liberá-lo. Após fazê-lo, recebi esta mensagem:

"Hooray! Obrigado por me salvar. Meu nome é Yoshi. Em meu caminho para resgatar os meus amigos, Mario me prendeu neste ovo."

Neste momento, pensei em todos os cenários possíveis: Mario atacando a Terra dos Dinosauros, destruindo as plantações, causando danos horríveis e irreversíveis, enfim, tudo. O autor havia me fisgado com seu pequeno jogo doentio, e como qualquer outro idiota, eu mordi a isca e ainda voltava para conseguir mais...

Em algum lugar não muito longe do bloco do Yoshi, eu encontrei outra caixa de mensagem, no mesmo lugar em que me lembro de estar no jogo original, porém, se eu aprendi alguma coisa jogando isso, foi que as caixas de mensagens não guardavam coisas boas para mim. Isso me fez hesitar em bater nele, mas eu acabei fazendo-o de qualquer maneira. Eu queria saber mais. A mensagem que eu recebi foi a seguinte:

"mas,

há algo que eu possa fazer para você mudar de ideia?"

Que porra era essa? O que diabos isso queria dizer? Mudar de ideia? Sobre o que eu mudaria de ideia? Isto se tratava sobre todas as coisas que Mario havia feito, e sobre como as pessoas estavam tentando convencê-lo a parar? Yoshi estava falando comigo através das caixas de mensagens? Ou era sobre mim? Parecia que o hack estava tentando se comunicar comigo através das caixas de mensagens. Bem, de qualquer forma, se aquilo se tratava sobre o que Mario havia feito, ou sobre minha decisão de continuar, decidi continuar a jogar, apesar dos sinais evidentes de que eu deveria ter parado a um bom tempo. Enquanto progredia, descobri que eu estava certo: toda a vegetação havia sumido, e nada fora deixado na fase, excepto por alguns inimigos, como os Jogadores de Futebol e as Marmotas; até mesmo os canos haviam sumido. Me deparei com outra caixa de mensagem. Como todas as outras vezes, decidi atingi-lo. Fui recebido com outra mensagem enigmática...

"-PONTO DE DICAS- Esta é a maneira egoísta para ir embora"

A maneira egoísta para ir embora? Que diabos... O hack estava me chamando de egoísta por continuar a jogá-lo apesar das advertências? Neste ponto, eu estava assustado a ponto de estar tremendo um pouco, um misto de expectativa, o medo, e o fato de que meu quarto estava terrivelmente frio naquela noite. Fechei a caixa de mensagem e mais uma vez segui em frente. A área com os marmotas parecia não ter mudado, mas o fundo com as nuvens felizes também haviam desaparecido, como pude ver quando escalei o cipó. Isso fez com que eu me sentisse triste, para dizer o mínimo, não tão assustado quanto deprimido... é um sentimento que eu não consigo explicar muito bem. A partir deste ponto, era basicamente apenas um enorme caminho de terra até o final da fase. Eu continuei rapidamente, queria dar o fora de lá o mais rápido possível, já que havia passado tempo demais olhando ao redor. Então, eu e Yoshi (eu ainda estava montado nele) finalmente abrimos o caminho para a próxima fase. Ela também fora alterada. O que antes era Yoshi’s Island 3 agora se tornara "Yoshi’s Island 7". O hack Memories of Super Bobido World imediatamente veio em minha mente, já que ele tinha esse mesmo sistema de pular vários números de fases, o que o fazia parecer ainda mais ridículo, mas neste momento eu não havia achado nada bem-humorado, devido ao senso comum e razões óbvias explicadas anteriormente. Entrei no nível sem hesitar. Quando entrei, fui recebido por um fundo preto sólido, e um piso azul e cinza. O lugar parecia congelado... Sem vida e estéril. Não havia nada na fase, exceto pelo poste de checkpoint.

Apenas um trecho de terra clara com mais nada em volta. Rapidamente perdi meu interesse e terminei a fase, apesar desta parecer ser a fase mais solitária e assustadora do jogo, pelo menos até agora, já que as coisas se tornariam piores em breve. Com a fase terminada, um novo caminho se abriu: “Yoshi’s Island 4” se tornara apenas "leave now (saia agora)". Agora eu hesitei sobre querer parar de jogar, mas meu interesse ainda era mais forte. Neste ponto, SMWCentral não era mais nada alem de minhas postagens constantes sobre as descobertas e mensagens do hack, para que outros pudessem experimentar o que eu estava experimentando. O canal, infelizmente, estava estranhamente inativo; parecia que ninguém realmente se importava, ou não estavam por perto. Eu me sentia sozinho... Mas prossegui para a próxima fase. Na maior parte, tudo parecia o mesmo, tirando o fato de que agora não havia mais água para me impedir de cair em buracos sem usar Yoshi como um sacrifício. O nível também estava vazio de inimigos.

Sempre que eu chegava num buraco que parecia muito longe para eu pular por cima, descobri que eu poderia andar no ar, assim me livrando da necessidade de utilizar Yoshi como um sacrifício. Era evidente que o hack queria que eu o deixasse comigo, pelo menos até agora. Fui capaz de chegar ao cano que geralmente me leva para a saída da fase. Entrei e vi que a sala estava exatamente normal, tudo no mesmo lugar e nada editado... ou foi o que pensei. A caixa de mensagem, mais uma vez, quebrou o clima daquele breve momento de alívio que eu tive ao entrar pelo cano. Nesse ponto, eu estava questionando se eu deveria continuar para ver como tudo aquilo terminava, ou sair naquele momento enquanto eu ainda tinha um pouco de senso comum sobrando. A caixa de mensagem era meio indistinguível, e eu sinceramente não consegui entender o que queria dizer:

"Você conseguirá se cortar a no final. Se você coletar você pode."

Por um momento tentei descobrir o significado daquela mensagem, mas, eventualmente, desisti e terminei o nível. Imaginei que a caixa não valia muito a pena. Com o nível terminado, o caminho para o castelo do primeiro mundo foi liberado, agora renomeado de "#1 Iggy’s Castle" para "#1 GO BACK (#1 VOLTE)". Com certeza, me senti muito bem-vindo ali...

Ignorando completamente o nome da fase, já que estava decidido a terminar de vez com tudo aquilo para sempre, segui em frente. O que parecia ser a introdução normal da entrada de de um castelo foi deixada especialmente assustadora, dado o fato de que eu tive que me separar do Yoshi. Eu senti pela primeira vez que eu estava realmente abandonando-o, e aquilo definitivamente não era bom. A sala interior do castelo parecia estranha; havia um tom de lava esverdeada escura no teto, e havia postes que pareciam pilares. Além de que, ao lado de cada pilar, havia uma quantidade bem alta de caixas de mensagem, quanto mais eu avançava, mais a quantidade aumenta


Eu havia terminado minha jornada, e estava muito aliviado por isso. O pesadelo terminara, e as atividades no fórum e no Skype pareciam ter voltado ao normal. Rapidamente compartilhei meu relato com o resto dos usuários do SMWCentral, e escrevi esta pequena documentação digitada aqui.

Se você se sentir ousado o suficiente, você também pode testemunhar meu relato em “primeira mão”.

Lembrem-se, rapazes, é apenas um hack, ele não pode machucar... Certo?

Link para download do jogo/hack: http://bin.smwcentral.net/36667/MARIO%20(1).zip


Arquivo .txt convertido para o formato .jpg (descoberto pelo administrador Kieren, do SMWCentral):