segunda-feira, 6 de abril de 2026

O Tolo

A placa acima da porta dizia:

“O Tolo.”

Uma estranha calma pairou sobre o grupo.

Chris foi o primeiro a falar.

“Novos começos… fé cega… aventurar-se no desconhecido.”

Ford soltou uma risada seca.

“Ou simplesmente estupidez.”

Ninguém contestou.

Desta vez, ninguém se apressou.

Mas Paul… Paul sorriu.

“Finalmente”, disse ele. “Algo que me soa familiar.”

Chris olhou para ele.

“O que você quer dizer?”

Paul deu de ombros.

“Passei a vida inteira entrando em lugares que não entendia. Países novos, pessoas novas… sem plano, sem mapa. Você simplesmente vai.”

Alex franziu a testa.

“Isso não é nada reconfortante.”

Paul se virou para ela, ainda sorrindo.

“É sim, quando funciona.”

Gregory empurrou a porta.

E pela primeira vez…

A sala não parecia uma sala.

Parecia um labirinto.

Um espaço imenso se estendia diante deles, muito maior do que qualquer julgamento anterior. As paredes eram pálidas, quase idênticas às salas anteriores — mas desta vez, se estendiam infinitamente, dividindo-se em múltiplos caminhos.

Diretamente à frente:

Um corredor.

No final dele—

Duas portas.

Esquerda.

Direita.

Sem símbolos.

Sem pistas.

Apenas uma inscrição simples acima de ambas:

“Escolha.”

“Só isso?” disse Wes. “Essa é a sala?”

Chris deu um passo à frente lentamente.

“Não… não é tão simples.”

Atrás do primeiro conjunto de portas… mais corredores eram visíveis.

E no final de cada um?

Outro par de portas.

Sete vezes.

Sete escolhas.

“Uma corrente”, murmurou Joseph. “Sete decisões.”

“Sete chances de morrer”, corrigiu Gregory.

Paul deu um passo à frente.

“Bem… acho que vou primeiro.”

Alex imediatamente segurou seu braço.

“Espere. Ainda não sabemos as regras.”

Paul se afastou delicadamente.

“Essa é a ideia, não é?”

Chris olhou para ele, agora sério.

“Paul… isso não é como os outros. Não há nenhum sistema que possamos decifrar ainda.”

Paul sorriu novamente, mas desta vez, havia algo teimoso por trás do sorriso.

“Vocês têm resolvido tudo até agora. Deixem-me tentar algo do meu jeito.”

Ford zombou.

“Isso promete ser divertido.”

Paul caminhou até o primeiro conjunto de portas.

Esquerda.

Direita.

Ele olhou para ambas… e então riu baixinho.

“A vida toda”, disse ele, “sempre que tive que escolher, simplesmente escolhi uma e segui em frente. Não importava qual.”

Ele colocou a mão na porta da esquerda.

“Vamos ver se a sorte ainda está do meu lado.”

Ele a abriu e entrou.

A porta se fechou atrás dele.

Silêncio.

Então—

Um som distante.

Não imediatamente.

Não dramático.

Apenas…

Um estalo abafado e ecoante.

Seguido de nada.

Alex cobriu a boca com a mão.

“…Não.”

Wes recuou um pouco.

“O que?… Foi só isso?”

Gregory encarou a porta, com uma expressão fria.

“Um erro.”

Chris não se moveu.

Seus olhos estavam fixos na porta.

“O Tolo…” ele sussurrou.

Joseph olhou para ele.

“O que isso significa?”

Chris engoliu em seco.

“Não se trata apenas de começos.”

Ele olhou para os outros.

“Trata-se de fé cega.”

Ford cruzou os braços.

“Então a lição é o quê? Não escolher?”

“Não”, disse Chris.

“A lição é… escolher sem pensar… ainda é uma escolha.”

A porta à frente deles destrancou lentamente com um clique pesado.

O caminho continuava.

Mais seis conjuntos de portas.

Ninguém se mexeu.

Alex falou baixinho.

“…Não podemos fazer isso aleatoriamente.”

“Não”, disse Chris.

“Desta vez… temos que pensar.”

Gregory deu um passo à frente.

“Então começamos a tratar isso como o que é.”

Ele observou cada porta com atenção.

"Um padrão. Um sistema. Sempre há um sistema."

Atrás deles, despercebido—

Ford observava o corredor.

Sem medo.

Sem estar abalado.

Apenas… pensando.

E bem à frente, além das portas restantes…

Algo no silêncio parecia diferente agora.

Como se a própria sala tivesse tomado sua primeira decisão.

O corredor se estendia à frente deles.

Mais seis escolhas.

Mais seis chances de errar.

Ninguém se ofereceu desta vez.

"Certo", disse Gregory, dando um passo à frente. "Vamos fazer diferente agora."

Ele se agachou perto das portas, inspecionando dobradiças, chão, batente.

"Placas de pressão. Diferenças de pressão. Qualquer coisa."

"Encontrou alguma coisa?", perguntou Wes.

Gregory balançou a cabeça negativamente.

"Nada óbvio."

Bulldog riu lá de trás.

"Todo esse pensamento... e ainda nada."

Gregory nem se virou.

“Então vá em frente. Mostre-nos como se faz.”

Bulldog deu um sorriso irônico, mas não se moveu.

Chris deu um passo à frente.

“Não temos pressa. Não chutamos.”

Ford assentiu levemente.

“Finalmente algo sensato.”

Alex permaneceu perto de Chris.

---

Segunda Escolha

Duas portas.

Idênticas.

Silenciosas.

Chris as encarou por mais tempo que os outros.

Algo naquele espaço… naquela quietude…

Parecia familiar.

Não a sala.

A sensação.

Uma lembrança tentando emergir…

Uma porta.

Uma escolha.

Um momento em que algo deu errado.

“Chris?” Alex sussurrou.

Ele piscou.

“…Porta da direita.”

Todos olharam para ele. Ford ergueu uma sobrancelha.

"E isso se baseia em...?"

Chris hesitou.

"Não sei. Só... não escolha aleatoriamente."

Gregory o observou por um segundo... e assentiu.

"Bom o suficiente."

Ele abriu a porta da direita.

Todos ficaram tensos—

Nada.

O corredor continuava.

Um suspiro coletivo escapou.

"Certo..." disse Wes. "Funcionou."

Lá do fundo—

"Palpite certeiro", murmurou Bulldog.

Chris não respondeu.

Mas sua expressão havia mudado.

---

Terceira Escolha

O ar parecia mais pesado agora.

Como se a sala estivesse observando.

Desta vez, Ford deu um passo à frente.

“Vamos usar a lógica.”

Ele apontou.

“As pessoas tendem a complicar demais os padrões. Então, vamos assumir a simplicidade.”

Gregory cruzou os braços.

“Continue.”

“Se a primeira porta correta não foi aleatória… então talvez ela se alterne.”

Esquerda.

Direita.

Esquerda.

“E agora?” perguntou Wes.

Ford deu um sorriso irônico.

“Esquerda.”

Ele abriu a porta.

Silêncio.

O corredor continuava.

Wes deu uma risada nervosa.

“Ok… ok, são duas.”

Bulldog bufou.

“Ou dois palpites de sorte.”

Ford se virou um pouco.

“Sinta-se à vontade para contribuir a qualquer momento.”

Bulldog apenas sorriu.

---

Quarta Escolha

Agora a tensão era real.

Duas escolhas certas não significavam nada.

Um erro — e tudo acabaria.

Dessa vez, Alex deu um passo à frente.

Sua voz estava mais baixa.

“Estamos partindo do princípio de que existe um padrão.”

Chris olhou para ela.

“Você acha que não?”

“Eu acho…” ela hesitou, “…que esta sala é sobre O Tolo.”

Todos ouviram agora.

“Isso significa… talvez não haja padrão nenhum.”

Silêncio.

Wes engoliu em seco.

“…Isso é pior.”

Gregory expirou lentamente.

“E aí? Congelamos?”

Chris fechou os olhos por um segundo.

Aquela sensação de novo.

Aquela lembrança ressurgindo —

Uma voz.

Um grito.

Uma porta.

Seus olhos se abriram de repente.

“…Direita.”

Ford franziu a testa.

“Você está chutando de novo.”

Chris balançou a cabeça.

“Não… eu só… não consigo explicar.”

Gregory deu um passo à frente.

Ele não hesitou.

Abriu a porta certa.

Uma pausa—

Então—

O corredor continuava.

Três portas em fila.

Agora até Ford parecia inquieto.

Atrás deles, o sorriso de Bulldog se desfez — apenas um pouco.

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Quinta Escolha

“Certo…” disse Wes, com a voz trêmula. “Isso não é normal.”

“Não”, concordou Joseph. “Não é.”

Ford se aproximou de Chris.

“De onde você tirou isso?”

Chris esfregou a têmpora.

“Não sei… parece que já… estive aqui antes.”

Os olhos de Bulldog se estreitaram.

Só por um segundo.

Alex percebeu.

“Chris…” disse ela com cautela. “Do que você se lembra?”

Chris olhou para ela—

“…Uma porta.”

Silêncio.

“Uma porta… e alguém gritando.”

Bulldog desviou o olhar.

Gregory percebeu.

Mas não disse nada.

Chris respirou fundo.

“…Esquerda.”

Sem discussão desta vez.

Gregory abriu a porta.

O corredor continuava.

Wes riu de verdade desta vez.

“Ok—ok, isso está funcionando!”

Ford não sorriu.

“Isso não é lógica.”

“Não”, disse Joseph baixinho.

“É outra coisa.”

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Sexta Escolha

A pressão era insuportável agora.

Eles estavam perto.

Perto demais.

A escuridão além do último corredor parecia diferente.

Mais pesada.

Espera.

“É a ultima”, disse Gregory.

Chris deu um passo à frente lentamente.

Aquela sensação era mais forte agora.

Fragmentos.

Uma máscara.

Uma luta.

Uma voz implorando—

Sua mão tremeu.

“…Direita.”

Ford agarrou seu braço.

“Espere.”

Todos congelaram.

Ford olhou para ele atentamente.

“Você não está adivinhando.”

Chris não respondeu.

Ford se inclinou um pouco para frente.

“O que aconteceu com você?”

Silêncio

Então—

Bulldog da um passo à frente.

“Chega disso.”

Ele passa por todos—

e bate com a mão na porta da esquerda.

“Bulldog, ESPERE—” Alex gritou—

A porta se abriu.

Uma pausa—

Então—

Um estalo distante e violento ecoou pelo corredor.

Seguido por algo mais pesado desta vez.

Molhado.

Final.

Silêncio.

Ninguém se mexeu.

Bulldog se vira lentamente.

Sorrindo.

“…Acho que escolhi a porta errada.”

Chris o encara.

Não com medo.

Não com raiva.

Algo mais.

Reconhecimento.

Só por um segundo.

Então, desaparece.

A porta da direita destranca com um clique alto.

Ninguém diz nada.

Um por um—

Eles entram.

A última porta se fechou atrás deles com um baque pesado e ecoante.

A sala além era pequena.

Pequena demais.

Depois de tudo o que tinham acabado de atravessar… parecia errado.

Vazio.

Branco.

Silencioso.

Wes encostou-se na parede, respirando pesadamente.

“…Só isso?”

Ninguém respondeu.

Gregory ficou parado, braços cruzados, os olhos percorrendo o grupo.

Contando.

Avaliando.

“Dois se foram”, disse ele secamente.

“Paul… e quem quer que fosse aquele.”

As palavras pairaram no ar.

Nem mesmo um nome para o segundo.

Apenas—

alguém.

Alex olhou para baixo.

Suas mãos tremiam.

“…Ele nem hesitou.”

Ninguém precisou perguntar a quem ela se referia.

Chris encarava a porta pela qual tinham acabado de passar.

Não com medo.

Nem mesmo com raiva.

Mas como se tentasse enxergar através dela.

“…Eu me lembro de algo”, disse ele baixinho.

Isso fez com que todos olhassem para ele.

Até mesmo Ford.

Chris não se mexeu.

“Havia uma porta.”

Sua voz soava distante.

“Não aqui… antes disso.”

Bulldog se mexeu levemente.

O suficiente.

“Havia gritos… alguém implorando…”

Chris pressionou os dedos contra a têmpora.

“…e outra pessoa… observando.”

Silêncio.

Alex se aproximou.

“Chris…?”

Ele piscou. O momento passou.

“…Já passou”, murmurou ele.

Ford o observou atentamente.

Não com escárnio desta vez.

Com interesse.

“Isso não é aleatório”, disse Ford.

“É memória.”

Chris não respondeu.

Do canto—

Uma salva de palmas lenta.

Bulldog.

“Bem, isso foi divertido”, disse ele.

“Entrar, abrir portas, pessoas morrem. Simples.”

A cabeça de Gregory inclinou-se ligeiramente.

“Você acha que isso é uma brincadeira?”

Bulldog deu um sorriso irônico.

“Acho que pessoas morrem todos os dias. Isso é só… mais organizado.”

Isso foi a gota d'água.

Alex deu um passo à frente. “Você abriu aquela porta.”

A voz dela tremia, mas não falhou.

“Você não se importou.”

Bulldog olhou para ela.

E sorriu.

“Se importar com o quê?”

Chris se moveu.

Apenas um passo.

Mas foi o suficiente.

Algo mudou no ar.

“Você não se lembra, não é?” Bulldog disse casualmente.

Chris congelou.

Uma pausa.

“…Lembrar do quê?” Chris perguntou.

O sorriso de Bulldog se alargou —

E desapareceu tão rápido quanto surgiu.

“Nada.”

Gregory estava observando agora.

Atentamente.

Ford também.

Mas ninguém insistiu.

Ainda não.

Um estalo metálico e alto ecoou pela sala.

A próxima porta destrancou.

Todos se viraram.

Acima dela, o próximo nome se revelou:

“A Torre"

Desta vez, ninguém se apressou.

Wes engoliu em seco.

“…E agora?”

Chris olhou para a porta.

Depois para o grupo.

Depois… para Bulldog.

“…Agora”, disse ele baixinho,

“as coisas desmoronam.”

Bulldog deu uma risadinha.

Mas, pela primeira vez—

Ninguém mais riu.

E enquanto caminhavam em direção à próxima sala…

Ficou claro.


Eles não tinham apenas sobrevivido ao Louco.

Eles haviam perdido:

sua certeza

sua confiança

e qualquer ilusão de que isso pudesse ser controlado

Daqui em diante—

Não haveria mais adivinhação.

Apenas consequências.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

1999

1999. Eu era apenas um menino de 5 anos de idade. 1999 é um ano que existe como um chiclete jogado no chão em minha mente e, por mais que eu tente esquecer, suas memórias jamais desaparecem.

Tudo começou com aquela velha TV. Pokémon era a última moda na escola: cartas, jogos, figurinhas, e o mais popular, os programas da TV. É claro que toda vez que eu chegava da escola, minha vontade era de ficar grudado à tela da televisão até Pokémon começar. O problema era que o noticiário que meu pai assistia começava na mesma hora que os episódios de Pokémon, o que significava que eu perderia um episódio por dia, algo que me deixava completamente desapontado porque queria falar sobre eles na escola com meus amigos. Meu pai cansou-se de me ouvir reclamar sobre isso todos os dias e resolveu comprar outra televisão.

Meu pai colocou a tv que tinha comprado no meu quarto, mas infelizmente era uma daquelas bem antigas. Só tinha 20 canais e não incluía o canal em que passava Pokémon. Mas eu não me importava, pois estava emocionado porque tinha minha própria tv no quarto. Depois de navegar pelos canais disponíveis, cheguei à conclusão de que apenas o canal 2 valia a pena, então assisti isso por um tempo.

Um dia descobri um programa novo chamado Caledon Local 21, no mês de Abril.

Os programas que eu vi neste canal pareciam mal feitos e eu nunca entendia o que estava acontecendo na maior parte do tempo. No entanto, eu cresci. E toda vez que eu lembrava daqueles programas, os achava ainda mais sem sentido e confusos e me perguntava: "Que diabos eu estava assistindo?"

O que segue abaixo é uma lista de programas e episódios que me lembro de ter visto no Caledon 21. Me assusta a riqueza de detalhes em minha memória, mas acho que coisas como esta marcam sua mente. Havia apenas 3 programas no canal.

O Porão do Sr. Urso, episódio 12: O programa mostrava um cara vestindo uma fantasia de urso que recebia um novo visitante em seu porão todos os dias (eram sempre crianças). Era filmado com uma câmera de vídeo com uma qualidade ruim. A polícia me fez inúmeras perguntas sobre este programa. O episódio começava com o Sr. Urso sentado em uma mesa jogando damas sozinho. Ele ficou lá sentado por um tempo até ouvir uma batida na porta. A câmera foi então mostrando os degraus até a porta, onde ouve se a batida de novo.

O Sr. Urso subiu as escadas e abriu a porta, lá estavam duas crianças. Um era menino e aparentava ter 5 anos, e a outra era uma menina que parecia ter 8 anos. O Sr. Urso dançou com a chegada das crianças e em seguida começou a conversar com eles. Pelo que me lembro, não era possível escutar nada do que eles diziam. O Sr. Urso então levou as crianças para o porão, que era bastante escuro e iluminado apenas por um pequeno abajur. Eu realmente não me lembro de muita coisa, a não ser ele cantando uma música que eu nem conseguia ouvir muito bem, por causa da máscara de urso. O episódio terminava com eles brincando de esconde-esconde, com as crianças escondidas no armário e o Sr. Urso contando.


Maio/1999
Sopa e Colher: Eu não acho que isso tenha sido realmente um programa, acredito que tenha sido mais algo como um filme de curta-metragem. Eu tinha parado de assistir o canal Caledon Local 21 por uns tempos, um pouco porque os programas eram meio estúpidos, além disso, Pokémon havia mudado de horário. Eu não me lembro de muito, mas o programa foi filmado em um porão semelhante ao que foi usado pelo Sr. Urso. A coisa toda durou cerca de meia hora, e achei estúpidas algumas cenas como uma em que a colher persegue a lata de sopa, tentando comê-la. No final mostra uma mesa com 7 crianças sentadas, cada uma com seus pratos. Elas olhavam para a câmera, mas confusos e com uma expressão de medo em seus rostos. O homem da câmera, em seguida, segura uma lata de sopa na frente das crianças e diz: "Prontas?" E então acaba.

Julho/1999
Era verão e não assistia ao canal 21 há um bom tempo. Até que um dia, fui dormir na casa de um amigo e decidi verificá-la novamente. Meu amigo tinha ganhado uma tv de aniversário, por isso ficamos acordados até muito tarde (21:30h para nós, na época, era muito tarde, rs) e assistimos à televisão. Foi quando me lembrei do Canal 21 e mostrei para o meu amigo. Decidimos ver se ainda estava transmitindo, e para nossa surpresa, estava (eles devem ter mudado o horário da programação).

O Porão do Sr. Urso, episódio 23: Este episódio foi divertido para o meu amigo e eu, principalmente porque tinha palavrões. No entanto, quando eu penso, hoje, neste episódio, eu percebo que algo muito errado devia estar acontecendo quando ele foi filmado. Começa com a imagem da câmera deitada, de lado, enquanto gravava o Sr. Urso subindo as escadas para a porta do porão. A câmera apaga por cerca de 1 segundo e volta. Havia um garoto falando com o Sr. Urso, esse garoto parecia ter 11 ou 12 anos. Ele ficou conversando com Sr. Urso por um tempo, mas eu não conseguia ouvir bem até que o menino começou a levantar a voz.

O garoto estava dizendo que já era tarde e sua irmã deveria ir para casa. (dava para ouvir vozes no fundo), O Sr. Urso dizia: "Sai daqui, porra! Vai embora!), com uma voz grossa abafada pela máscara de urso. Lembro-me de meu amigo e eu olhando um para o outro e rindo. Nossos pais nos davam uma bronca sempre que começavamos à xingar. Mas o episódio ficou ainda mais estranho. O garoto subiu as escadas antes de se virar e dizer que chamaria a polícia. Neste momento, o Sr. Urso começou a correr em direção a ele, que corria e gritava também. A câmera, então, corta a imagem e este foi o final do episódio. O canal entrou em estática pouco depois.

Agosto/1999
Em agosto, eu fiquei curioso para ver O Porão do Sr. Urso. O último episódio que vi do Sr. Urso era muito estranho, e tinha palavrões, o que também me fez pensar que o programa era feito para adolescentes. No entanto eu coloquei no canal para assistir enquanto meu pai estava ocupado.

O Porão do Sr. Urso, episódio 28: Aparentemente este episódio foi passado na tv durante todo o mês de agosto. Foi muito estudado pela polícia. O episódio inteiro foi o Sr. Urso sentado em uma cadeira falando para a plateia: "Olá, crianças! Vocês querem visitar o meu porão? Se vocês quiserem, por favor me escrevam uma carta neste endereço!". A tela, em seguida, foi mudada por uma tela toda branca com letras coloridas contendo o endereço e assim permaneceu todo o resto do episódio. E adivinha o que eu fiz? Enviei uma carta ao "Sr. Urso", ou aquele doente que o representava pedindo as cartas. Eu fiz isso principalmente por curiosidade. Meu pai ficou de boa quanto a isso, pois ele pensava que era um programa legítimo para crianças, já que nunca havia visto nada do que realmente passava no Canal 21. Então eu escrevi uma carta com minha melhor letra e acho que acabei dizendo que queria muito conhecer o Sr. Urso. Meu pai enviou a carta para o endereço que o Sr. Urso passou durante o programa (que ficou passando durante o dia todo de qualquer maneira, por alguma razão). Demorou cerca de uma semana para eu receber uma resposta. Tenho até hoje a carta que recebi em 15 de agosto de 1999. A carta dizia:

"Querido Eliot, muito obrigado pela carta. Eu adoraria te ver aqui na minha casa! Nós iríamos brincar, ver filmes e fazer uma fogueira durante um acampamento na floresta. Venha a minha casa em (... a polícia cortou este endereço...), Caledon, Ontário, Canadá. Espero muito poder me divertir com você! Com amor, Sr. Urso."

Eu não posso acreditar que meu pai nunca soube quem era esse cara, já que ele me levou até a casa. E, em seguida, é quando a polícia se envolveu, com perguntas intermináveis, fotos de crianças aterrorizadas, florestas, etc.

Isso me leva à razão pela qual estou escrevendo este texto, aquele psicopata e seus amigos ferraram a vida de algumas pessoas naquela época com aquela merda toda, e parece que agora ele está tentando entrar em contato comigo novamente, e a coisa toda da polícia está voltando a minha mente.

14 de novembro de 2009
As pessoas têm me perguntado o que exatamente me aconteceu em 1999: eu vou contar. Estes programas de tv estranhos que eu estava assistindo aparentemente foram feitos para atrair crianças para a casa do Sr. Urso, o que depois, chocou a cidade inteira.

Meu pai realmente me levou até Caledon seguindo o endereço do Sr. Urso deixado na carta. A casa ficava fora da cidade, em campo aberto, terras agrícolas. Ainda me lembro daquela casa. Parecia uma casa vitoriana. As janelas estavam todas fechadas com tábuas. Como nós caminhamos até a casa, lembro que meu pai checou o endereço várias vezes, olhando para a casa com descrença. Então a porta se abriu.

Eu esperava que o Sr. Urso estivesse na porta, mas fiquei surpreso ao ver um policial sair da porta. O policial começou a falar com meu pai, enquanto eu perguntei se era a casa do Sr. Urso. O policial ficou assustado e murmurou: "Oh meu Deus..." ou algo parecido. Ele começou a falar em voz baixa com meu pai, e eu não conseguia ouvir, mesmo assim, meu pai me disse para entrar no carro. Então, nós simplesmente fomos para casa. Meu pai estava calado durante todo o percurso para casa. Eu senti que algo estranho tinha acontecido.

Meu pai não me contou o que aconteceu. A lembrança do Canal 21 não veio por um longo tempo, e quando eu perguntei sobre isso ao meu pai, ele falou que não existia. Acho que foi quando eu tinha 13 anos que eu soube a verdade. Lembrei-me do Canal 21 um dia, e perguntei ao meu pai de novo e ele finalmente decidiu que eu deveria ouvir a verdade.

Caledon Local 21 foi um canal de Tv local que transmitiu programas entre outubro de 1997 e agosto de 1999, em Ontario, Canadá. O canal inteiro foi feito a partir de uma casa em Caledon e executado por um homem.

[Atualização] - 02 de dezembro de 2009
Desculpe por demorar a responder perguntas. Em outubro passado, visitei a casa anteriormente propriedade do homem que dirigia o Caledon 21. Duas mulheres viveram lá, operando uma escola. Agora responderei as questões que vocês mandaram para mim:

Pergunta: Quem mais assistiu o Caledon Local 21?
Resposta: Eu sei que outras pessoas assistiram com certeza, incluindo aquelas que faleceram na casa. Depois de algumas pesquisas no Google, eu encontrei algumas pessoas nos fóruns que discutiam programas do Caledon Local 21. Eles falavam sobre os programas infantis que eu assisti, mas também de outros dois programas que eu nunca havia assistido. Um usuário chamado "iamreallife" parecia conhecer todos os episódios dos programas transmitidos no Canal 21. Aqui estão os dois que eu nunca tinha ouvido falar:
O Anjo Caído e Vida. "iamreallife" descreveu-o como um show bastante chato sobre um cara divagando na frente da câmera sobre como devemos agradar a Satanás, antes que seja tarde demais.
Pinte com a Alma. "iamreallife" e outro usuário chamado "sigy92" estavam discutindo sobre este programa. Eles descreveram como sendo parecido com "Bruxa de Blair", que consistia em o cinegrafista vagar em torno de uma floresta durante a noite, sem fazer nada particularmente interessante. Eu vou procura a conversa de novo para postar o link.
Pergunta: Onde está o Sr. Urso ou o cara que vestia a fantasia?
Resposta: Se eu soubesse, já teria dito. Eu não tenho nenhuma ideia de onde este cara está, se está vivo ou morto (espero que morto). Quando eu me encontrar com o amigo do meu pai de novo, perguntarei a ele sobre isso, talvez eu possa obter uma resposta mais definitiva.
Pergunta: O que o Sr. Urso fazia com as crianças?
Resposta: Esta é a pergunta mais frequente que eu recebi. Descobri isto em outubro através de um amigo do meu pai, que é um policial aposentado em Caledon. Aparentemente, o homem que fazia o papel do Sr. Urso levava as crianças para fora da casa e para a floresta nas proximidades. O que ele fazia lá, a polícia não sabe exatamente ao certo o que aconteceu, mas 16 corpos carbonizados de crianças amarradas e amordaçadas foram encontrados em um buraco enorme dentro da floresta. O amigo do meu pai não quis entrar em detalhes exatos, mas eu o encontrarei na próxima quinta-feira, então talvez possa adquirir mais informações dele.
Isso é tudo o que eu tenho por agora. Obrigado por manterem o interesse no meu blog, eu vou tentar reunir o máximo de informações que puder para a próxima postagem. Eu estou realmente muito interessado nessa minha história do passado. Deve ser o meu direito de finalmente saber o que diabos aconteceu.

[Atualização] - 14 de janeiro de 2010
Me desculpem, não tenho postado nada por um tempo, e meio que perdi o interesse por este blog desde que eu percebi que o foco se tornou procurar mais informações sobre o proprietário do Caledon Local 21. Encontrei algumas respostas através do pai de uma criança que eu costumava tomar conta. Ele mora do outro lado da minha rua e eu costumava cuidar dos filhos dele quando eles eram menores, e ele atualmente está com 75 anos. Ele morava perto da mata naquela época, fora da cidade de Caledon e testemunhou atividades do proprietário do Canal 21 na floresta. Seu nome é Anthony Pollo.

Quando Pollo vivia num pequeno bangalô fora do bosque, costumava fumar cigarros antes de retornar ao seu trabalho. Pollo descreveu que às vezes ouvia vozes de crianças provenientes das profundezas da floresta, bem como enxergava luzes brilhando na floresta. Pollo me contou que esses eventos começaram em setembro de 1997 (Nota: este é o período em que o Caledon Local 21 começou a ser exibido). Ele acabou se irritando com os barulhos, ou talvez tenha ficado intrigado com essas ocorrências e resolveu investigar.

Pollo descreveu como a cena toda parecia quando ele chegou lá. Havia um grupo de crianças com idades entre 5 e 12 anos, reunidos em torno de uma grande fogueira em chamas. Com eles havia um único adulto, um homem. Pollo conversou com o homem e perguntou o que ele estava fazendo na floresta com as crianças. O homem disse que estavam em um acampamento e que eles o faziam com frequência. Pollo simplesmente deixou por isso mesmo e pediu que fossem um pouco mais silenciosos. Pollo, em seguida fez uma pausa antes de me dizer que eles nunca respeitaram seu pedido de moderação, pelo contrário, por vezes, ele ouvia as crianças cantando alto em uma língua desconhecida. Ele não se incomodou em ir conversar com o homem de novo, já que o homem estava de mudança, de qualquer maneira.

Eu disse a Pollo que aquele homem era provavelmente o proprietário do Caledon Local 21, mas ele duvidou, porque soube por vários outros moradores da região que ele estava se mudando para Pickering.

Aqui está o que eu sei agora: - O homem levava as crianças para a floresta para acampar. - A fogueira que Pollo descreveu pode ter sido feita no local onde o buraco com os corpos das crianças foi encontrada. - As crianças que Pollo viu aquele dia eram provavelmente as que foram encontradas mortas. - O homem mudou-se para Pickering. Vou discutir isso com o amigo do meu pai e ver se isso corresponde a qualquer coisa que a polícia saiba sobre o caso. Também quero ver se ele tem qualquer outro conhecimento sobre o que foi exibido no Canal 21.

[Atualização] - 10 de fevereiro de 2010
Eu falei com o amigo do meu pai e ele revelou um monte de informações para mim. Primeiro perguntei se a polícia tinha qualquer informação sobre o homem que dirigia o Caledon Local 21, e ele respondeu que eles somente tiveram as mesmas informações por anos e nunca encontraram um suspeito. No entanto, a polícia regional de Peel tem algumas fitas de vídeo encontradas na casa onde Caledon Local 21 foi transmitido, e ele me levou para que pudesse assistir algumas. Eu acho que eu não disse muito sobre ele ainda, mas o nome do amigo do meu pai é Mitchell Wilson, um cara muito legal. Ele meu deu 3 fitas das 5 que tinha, mas se recusou a me dar o resto quando perguntei pra ele se eu poderia levar as outras.

O Porão do Sr. Urso, episódio 25. Quando o administrador da polícia trouxe esta fita, eu realmente soltei um "Oh, merda..." e ri um pouco alto. Claro que ganhei olhares assustados dos oficiais da equipe, mas Wilson explicou a eles a minha experiência com o Sr. Urso e sobre eu ainda possuir a carta que ele me enviou. Como nos episódios anteriores, este incluía um cara vestindo um traje, uma fantasia de urso. O capítulo começa com Sr. Urso andando até a mesa com uma toalha vermelha e uma garrafa de suco de laranja em suas mãos. Na mesa havia 16 copos pequenos de bebidas, e uma pequena garrafa que continha um líquido desconhecido. O Sr. Urso derramou uma quantidade igual de suco de laranja em cada copo antes de abrir a garrafa menor e depositar uma gota do líquido misterioso neles. Em seguida o urso sai da visão da câmera, havia sons de falas no fundo, e logo, o Sr Urso volta para trás da câmera. Seguindo-o estavam 16 crianças, alguns aparentavam cerca de 4 anos, muito pequenas, enquanto outros aparentavam serem pré-adolescentes. À medida que as crianças entravam em cena, o administrador comentou que este é o único episódio que mostra todas as 16 vítimas. As crianças pareciam todas bastante contentes, exceto uma que tinha hematomas visíveis no rosto, e ao contrário das outras crianças, ele tinha uma expressão de medo. Este garoto aparentava ter 11 ou 12 anos, o que levou-me a reconhecê-lo. Ele era o garoto que tinha perguntado sobre sua irmã e que, posteriormente, teve um destino desconhecido no episódio 23. Quando contei isso ao policial, ele confirmou que era sim o mesmo garoto, e que ele também foi destaque no episódio 24 (um capítulo que foi ao ar somente uma vez, em julho de 1999, às 3:00h da tarde, e que a polícia ainda não tinha encontrado a fita). O Sr. Urso então começou a cantar uma música sobre frutas cítricas e os benefícios da vitamina C (eu mal podia entender a letra por causa da máscara de urso). As crianças todas beberam seu suco (exceto o menino do episódio 23, que bebeu a força por causa do Sr. Urso cochichar algo em seu ouvido), e terminou. Depois de ver as 3 fitas de posse da delegacia da estação de Davis, fiquei satisfeito, mas temporariamente. Eu ainda quero saber a história completa, a polícia continua me dando sempre a mesma porcaria sobre o criador de Caledon Local 21 ser um pedófilo fetichista, bem como um praticante de estudos ocultistas. Vou terminar hoje por aqui. Espero poder voltar a este blog o mais rápido possível.

[Atualização] - 08 de maio de 2010
Em 17 de abril eu finalmente consegui minha habilitação de motorista. Eu, claro, tirei vantagem disto e dirigi para Caledon para um pequeno "passeio de domingo". Não tenho atualizado este blog há algum tempo, e percebi que poderia muito bem visitar a casa onde o Canal da minha infância foi localizado. A casa parecia diferente do que quando eu a vi pela última vez em outubro. O lugar foi abandonado. No entanto, tinha uma placa de "Vende-se".

O que aconteceu com as crianças enquanto elas estavam vivendo naquela casa? Eu caminhei até as escadas da porta da frente e olhei pela janela. Dentro da casa eu podia ver um corredor quase vazio com algumas caixas no fundo.

No final do corredor à direita havia uma porta aberta, presumivelmente, que dava para a cozinha. À esquerda havia duas portas, ambas aparentemente levavam até quartos através das janelas de fora. Eu me perguntava onde era a entrada do porão que foi localizado e se tinha sido selado. Eu andava ao redor da casa e encontrei a minha resposta. Duas portas foram fechadas com cadeado, e com certeza levava ao porão. Não querendo ficar por ali (você não pode imaginar o que estava acontecendo em minha mente naquele momento) eu parti. Atrás da casa, o campo vazio continuava até que chegar a uma densa floresta que se alinhavam no horizonte. Eu me perguntei se era a floresta onde os corpos das crianças foram encontrados. Eu comecei a andar pelo campo atrás da casa para a floresta. A floresta era calma, dava para ouvir os sons de um pica-pau picando uma árvore. Eu cautelosamente fiz o meu caminho mais a fundo no bosque, sem me preocupar com o fato de que eu não tinha ideia de onde eu estava indo. Eu não sei como explicar isso, mas parecia que havia algo que eu tinha que encontrar. Eu vim para uma parte mais fina da floresta e havia algumas pequenas casas ao longe. A casa de Pollo passou pela minha cabeça e me perguntei se uma dessas casas havia pertencido a ele. Me aproximei de uma pequena clareira na qual eu podia ver cadeiras reunidas em uma espécie de semicírculo.

"Ei! Cai fora daqui!" Essas palavras quase me causaram um ataque cardíaco. Virei-me para a minha esquerda e vi duas pessoas vestidas com roupas escuras correndo em direção a mim. Meu pensamento inicial foi de correr, no entanto como eles chegaram mais perto, vi que eram realmente apenas meninos pré-adolescentes, possivelmente 13 ou 14, talvez até 12.

"Nós dissemos cai fora daqui.", disse o garoto loiro que vestia uma camisa roxa, obviamente intimidado. Eu mantive minha posição e dei de ombros. O garoto de cabelo preto usava uma camisa de um rockeiro tirou um canivete e apontou-o em minha direção. "Você não pode fazer isso. Se fizer, chamarei a polícia." Eu disse sério (tentando parecer o mais durão quanto possível). Peguei meu celular.

O menino guardou o canivete. "Olha cara, nós não gostamos de pessoas aqui, assim você pode simplesmente ir embora daqui?". Eu não tinha nada para fazer na floresta de qualquer maneira, então eu soltei um "Tudo bem." simplesmente e me virei para ir embora. Mas percebi que tinha uma grande oportunidade. "Algum de vocês já ouviu falar de um cara que matou um monte de crianças nesta floresta tipo... uns 13 anos atrás?", eu perguntei às crianças. Os dois se entreolharam em confusão, mas o da camisa de rockeiro respondeu "Sim ... Todo mundo sabe sobre esse cara", ele disse para mim. "Ele se suicidou... o amigo do meu irmão mais velho disse que ele morreu em 1999, se enforcando."

"Você não é daqui, é? Por que você veio até aqui?" Eu disse aos dois garotos sobre a minha experiência com o homem e Caledon 21.

[Atualização] - 07 de outubro de 2010
Nossa, quase 5 meses desde que eu fiz a última atualização. Eu suponho que todos praticamente acharam que eu estava morto, certo? Felizmente eu não estou. Mas sério, eu realmente tenho estado muito ocupado nos últimos meses, e um blog sobre algo que poderia ter me matado quando criança está um pouco abaixo na minha lista de prioridades atual. Agora estou morando Waterloo, Ontario. Em 10 de setembro, recebi um e-mail que dizia: "Caro Elliot, Meu querido, querido menino,

Tenho muitas saudades de você. Oh, como você cresceu! Seus belos olhos continuam os mesmos, lindos e castanhos. Naquele dia, você veio me visitar e eu me senti tão feliz que eu queria sair e colher morangos. Meu amigo me disse que você me procurou! Ah, sim, ele me disse que você procurou!

Agora em breve, você não vai ser mais solitário! Eu sinto muito por não poder ter dito "Olá" quando você veio me visitar, não uma vez, 2 vezes! Não há perigo, em breve você vai finalmente poder brincar com as outras crianças. Vou tentar deixar o meu porão ainda mais aconchegante do que antes!!!

Sr. urso"

Pode ser que este email é falso.

[Atualização] - 07 de novembro de 2010
Desde o meu último post, muita coisa aconteceu. Vamos recapitular onde eu estou agora com relação a todo o incidente do Sr. Urso. O email não me mandou mais nada depois que mandei várias respostas pra ele.

não está mais em uso, eu tentei responder ao e-mail, mas não obtive resposta. Tentei de novo em março, ainda sem resposta. Eu me mudei para Ottawa (Capital do Canadá) por causa da universidade, então eu não tenho ido para Caledon ou para casa na região de Peel por um tempo. Eu tinha minhas razões para me mudar como você poderia imaginar o porquê. Eu tive que fazer uma nova conta de e-mail porque as pessoas continuam me enviando brincadeiras fingindo ser o Sr. Urso. Muito obrigado, caras (só que não!).

Por que eu me arrisquei a voltar para este blog? Mitchell Wilson (lembram do amigo ex-policial do meu pai?) me telefonou em 23 de Outubro para falar sobre uma fita que foi encontrado em uma biblioteca pública.

[Atualização] - 21 de janeiro de 2011
Na quarta-feira, 1 de Janeiro, eu liguei para Mitchell Wilson e perguntei se teria um tempo para que eu passasse por lá para ver as fitas. As coisas estavam bastante lentas na estação por causa de uma tempestade de neve, mas ele disse que eu poderia ir para lá a qualquer momento naquele dia. As fitas estavam em um lugar não muito longe. Então eu enfrentei as estradas e os terríveis motoristas de Brampton e fiz meu caminho para a delegacia regional de Peel localizado no centro da cidade de Bramalea. Eu encontrei Wilson na frente da escrivaninha onde, então, levou-me até o segundo andar a um pequeno escritório. Ele instruiu-me a sentar em um banco e esperar enquanto ele corria e pegava as fitas. Antes de deixar o escritório, ele se virou para mim e disse "Eu sei que você está curioso, mas ... você tem certeza que quer ver isto?" Claro que sim, ou pelo menos pensava que sim. Além disso o amigo de Wilson tinha feito muito para me fazer chegar lá e eu não queria perder a oportunidade. Esta estação em particular teve 2 fitas na mão. Eu só tinha permissão para assistir a um deles, no entanto, porque a segunda fita aparentemente estava muito danificada para ser girada em um videocassete.

O Porão do Sr. Urso, episódio 30: O Sr. Urso nunca deixa de me perturbar, especialmente depois do que quase aconteceu quando eu era mais jovem. Este episódio ocorreu fora em uma floresta no crepúsculo, tornando-o um pouco difícil de ver especialmente considerando a qualidade do filme (marca registrada por qualquer coisa de Caledon Local 21). O episódio começou com a câmera focada nas mãos do Sr. Urso apontando-a para si mesmo.

Aquela máscara de urso... parecia mais sinistra nas sombras das árvores. A voz abafada inconfundível falou; "Olá, crianças! Hoje eu farei uma coisa maravilhosa para os meus amigos, vou levá-los a uma terra distante, onde eles vão ser felizes!". O Sr. Urso virou a câmera ao redor para mostrar um trator com um atrelado, mas o que mais foi estranho eram as vozes abafadas. "Esta aqui é a primeira carga, mas outras estarão a caminho em breve!" O Sr. Urso se virou e apontou a câmera para um buraco enorme no chão.

O resto do episódio consistiu em o Sr. Urso pegar cada criança e deixá-la cair no buraco. Perguntei a Wilson se elas já estavam mortas e ele sacudiu a cabeça e respondeu: "Ainda não". Logo todas as crianças estavam no buraco, alguns estavam em posições incômodas devido a ter sido atiradas, mas algumas delas permaneceram inconscientes ou quietas. "A vitamina C certamente irá ajudar estas crianças na grande jornada que os espera!", disse o Sr. Urso movendo a câmera para várias garrafas de gasolina ao lado de um arbusto. A câmera deu zoom nas garrafas enquanto o Sr. Urso cantarolava antes do episódio terminar.

Wilson revelou-me que algumas crianças foram encontradas vivas com queimaduras e foram levadas de volta para seus pais, que levaram elas ao hospital. O Sr. Urso usou várias caixas de fósforos para incendiar as crianças. Um buraco cheio de crianças queimadas... quem diabos faria isso? Esse sentimento de pavor me encontrou, mais uma vez, quando eu percebi que eu poderia ter sido uma daquelas crianças.crianças.

[Atualização] - Data desconhecida
Era uma vez...

Um rapaz chamado Elliot

Elliot era um menino que adorava brincar como uma criança normal.

Um dia, ele assistiu a um programa de televisão sobre um urso e seus amigos

As crianças adoraram a ajudar uns aos outros como boas crianças fariam, mas eles também adoravam o urso

O urso amava as crianças uma vez que as crianças eram tão boas em ajudá-lo e ao anjo caído

As crianças e o urso queriam brincar para sempre

Mas o anjo caído precisava de ainda mais ajuda, por isso as crianças tiveram que fazer o sacrifício final

Porque é isso que os amigos fazem, Elliot

Eles ajudam uns aos outros

Ajude-nos, Elliot, fique com a gente, Elliot

Eu quero você, Elliot, ele quer você, Elliot

Volte para o meu porão

Peço por favor com um bolo de confeiteiro e uma cereja no topo!

- Sr. Urso

[Atualização] - 05 de abril de 2011
Desculpem me, algum idiota que não tinha nada melhor pra fazer, tinha hackeado minha conta e publicou esse poema estúpido aqui. Depois de algumas semanas de silêncio, eu decidi pedir a Mitchell Wilson se eu poderia ver o que havia na fita que ele não queria me mostrar. Ele ficou relutante, mas me convidou para ir a sua casa em uma tarde de segunda-feira. Depois de ter visto um filme de Jogos Mortais, eu tinha certeza de que seria capaz de ver a fita.

O Porão do Sr. Urso, episódio 31: O episódio começou numa floresta, como nos episódios anteriores. Demorei para perceber isso porque era noite, as árvores e as folhas pareciam formas dançantes em torno na escuridão. Um fraco brilho de luz estava presente no lado direito da tela. Não houve qualquer áudio aparente, parecia ser uma noite de ventania e, mesmo assim, as árvores não faziam qualquer barulho. Lentamente, a câmera começou a deslocar para o brilho, revelando fumaça subindo de um buraco com a ponta das chamas saindo da parte superior deste buraco. Wilson fez uma pausa neste ponto; "Você tem certeza que quer ver isso?" ele me perguntou. Eu insisti que sim.

O vídeo continua, o cinegrafista move-se em direção ao buraco, mostrando um buraco pegando fogo. Este foi o buraco que eu tinha visto no episódio anterior. Só que desta vez estava cheio de formas. Eu podia ver formas dentro dele. Eu sabia o que eram. Eu gostaria de poder esquecer o que vi, mas você não pode esquecer uma cena como esta. Este não era um filme de terror, essa era a realidade. Os seres humanos sendo mortos de maneira horrível. O vídeo de repente cortar para a câmera posicionada agora mais longe do buraco. O fogo tinha acabado, no entanto, ainda havia fumaça. A câmera cai no chão e ouve se passos de alguém aproximando lentamente.

A cena mostra roupa do Sr. urso no chão. A roupa foi colocada em forma de uma cruz. O episódio terminou com a imagem de uma corda de forca.

Eu fiquei sem palavras, foi como um sonho. Você pode encontrar um monte de coisas terríveis na internet, mas eu nunca tinha visto nada assim. Wilson perguntou se eu estava ok e eu respondi com um trêmulo "sim". Assegurei-lhe de que eu estava bem e que o vídeo deu-me algum fechamento ao longo de todo o incidente. Ele não parecia muito confiante em mim, mas ele deixou por isso mesmo. Ele estava certo, porém, eu tive pesadelos durante semanas. Eu desisti, eu não me importava mais com a coisa toda. Um homem doente queimando crianças vivas, atraindo-os com o canal de TV para crianças falso. Eu poderia ter sido uma de suas vítimas, mas eu ainda estou aqui. Acho que eu deveria ser grato, mas eu me sinto culpado. Eu ainda estou aqui apenas por pura sorte?

Meu blog foi inundado com comentários, algumas pessoas pediam mais detalhes, outras perguntaram se eu podia enviar as fitas, e ainda outras mais me enviaram e-mails afirmando ser o Sr. Urso. Em primeiro lugar, nem mesmo eu, envolvido no casa, posso obter as fitas pois elas são: A)Provas da polícia e B) Eu não sei como rodar VHS no computador. Agora, para pessoas que fingem ser o Sr. Urso: Vão caçar uma louça para lavar. Eu mesmo vi um Caledon Local 21 falso no YouTube, que é bonito, mas ainda não é real. A pessoa apagou o vídeo horas depois. Ainda mais irritante é o fato de que alguém hackeou minha conta só para colocar algum poema sobre mim neste blog. Eu vou deixá-lo aí mesmo.

Eu estou bem sobre o episódio 31 agora, mas as imagens do que eu vi ficarão comigo por um tempo. Vou entrar em contato com Mitchell Wilson novamente e espero conseguir assistir as outras fitas. Vou tentar manter vocês atualizados.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Eu Não Tenho Boca e Preciso Gritar


Num futuro pós-apocalíptico, um supercomputador senciente mantém prisioneiros os últimos seres humanos da Terra, impondo-lhes aflitivas torturas físicas e psicológicas. Essa é a premissa da qual parte Harlan Ellison para narrar sua história mais famosa, “I Have no Mouth and I Must Scream”, de 1967, que foi usada como inspiração para o roteiro do filme O Exterminador do Futuro e, mais recentemente, para o episódio USS Calister, da série Black Mirror (o qual contém uma referência mais do que óbvia para o conto).

“I Have no Mouth and I Must Scream”, ou “Não Tenho Boca e Preciso Gritar”, foi escrito numa época em que a tecnologia computacional de inteligências artificiais ainda era uma novidade pouco conhecida, cercada de mistérios e receios, sendo ideal para todo tipo de especulações apavorantes. Nessa época em que o cidadão comum ainda teria de esperar algumas décadas até ter a oportunidade de possuir um computador caseiro vagamente similar aos que conhecemos hoje, Harlan Ellison concebeu uma das primeiras histórias modernas nas quais uma máquina tirânica e onipotente satisfaz seu sadismo com a tortura de seres humanos (“A Semente do Mal”, de Dean Koontz, surgiria apenas seis anos depois, em 1973). Foi nesse contexto, com imaginação perversa atulhada de imagens absurdas e situações insuportáveis, que o autor escreveu sua bizarra versão para um pesadelo tecnológico que, olhando hoje, parece ter menos a ver com ficção científica do que com um terror grotesco que beira a pura psicodelia.

NÃO TENHO BOCA E PRECISO GRITAR – Harlan Ellison
Tradução de Melvin Menoviks

Flácido, o corpo de Gorrister pendia da paleta cor-de-rosa; sem suporte: suspenso bem acima das nossas cabeças na câmara do computador. E ele não tremia na brisa fria e oleoginosa que soprava eternamente pela caverna principal. O corpo estava pendurado de ponta-cabeça, preso na parte de baixo da paleta pela sola do pé direito. O sangue havia sido drenado por meio de uma incisão precisa feita de orelha a orelha ao longo do maxilar saliente. Não havia uma única gota de sangue na superfície espelhada do chão de metal.

Quando o próprio Gorrister se juntou ao grupo e olhou para o corpo, já era tarde demais para perceber que, uma vez mais, AM estava nos enganando, divertindo-se às nossas custas; o cadáver pendurado não passava de uma brincadeira sádica por parte da máquina. O resto de nós havia vomitado, afastando os rostos uns dos outros em um reflexo tão antigo quanto a náusea que o produziu.

Gorrister empalideceu. Era quase como se ele tivesse se deparado com um boneco de vodu e agora temesse o futuro.

– Meu Deus – ele disse em voz baixa e saiu de perto.

Os quatro outros de nós fomos atrás dele depois de um tempo e o encontramos sentado em um dos bancos gelados, a cabeça apoiada entre as mãos. Ellen se ajoelhou ao lado dele e acariciou-lhe o cabelo. Ele não se mexeu, mas sua voz saiu da face encoberta com bastante clareza:

– Por que ele não liquida a gente e termina com isso de uma vez por todas? Jesus Cristo, eu não sei mais quando tempo eu consigo aguentar.

Era o nosso centésimo nono ano dentro da máquina.

Gorrister estava falando por todos nós.


Nimdok (esse era o nome que a máquina nos havia forçado a usar para nosso companheiro, porque AM se deleitava com sons estranhos) estava achando que existia comida enlatada nas cavernas de gelo. Gorrister e eu tínhamos nossas dúvidas.

– É outra baboseira – eu falei. – Igual aquela porcaria de elefante congelado que AM inventou para a gente. Benny quase perdeu a cabeça naquela vez. Nós vamos nos arrastar por todo o caminho e a comida vai estar apodrecida ou alguma merda desse tipo. Temos que esquecer isso. Vamos ficar por aqui mesmo, ele vai ter que nos trazer alguma coisa para comer logo-logo ou então nós vamos morrer.

Benny deu de ombros. Fazia três dias desde a última vez em que havíamos comido. Minhocas. Grossas e pegajosas.

Nimdok já não tinha mais certeza. Ele sabia que era palpável a chance de aquilo ser uma pilhéria da máquina, mas seu corpo estava ficando esquelético. Lá nas cavernas não poderia ser muito pior do que aqui. Estaria mais frio, é claro, mas isso não importava tanto. Quente, frio, granizo, lava, furúnculos ou pragas – não fazia diferença: a máquina se masturbava e nós tínhamos que suportar ou então morrer.

Ellen decidiu por nós:

– Eu preciso comer alguma coisa, Ted. Talvez haja alguma fruta por lá. Por favor, Ted, vamos tentar.

Eles me venceram com facilidade. Que inferno. Mas eu estava pouco me lixando. A Ellen ficou agradecida.  Ela aceitou “me receber” duas vezes fora da ordem. Mas até isso tinha deixado de importar. Ela nunca gozava, então por que eu deveria dar valor a isso? A máquina, porém, soltava risadinhas todas as vezes em que a gente transava. Bem alto, do teto, pelas costas, por todos os lados, debochando da gente. Aquela coisa rindo sem parar. Na maior parte das vezes eu pensava em AM como uma coisa, um objeto sem alma; mas no resto do tempo eu pensava nele como alguém, e alguém no masculino... algo paternal... patriarcal... um homem muito egoísta e ciumento. Ele. Deus como um Papai Degenerado.

Partimos na quinta-feira. A máquina sempre nos mantinha atualizados quanto à data. A passagem do tempo era importante; não para nós, com toda certeza, mas para ele... AM. Quinta-feira. Obrigado.

Nimdok e Gorrister carregaram Ellen durante um tempo, suas mãos segurando firme os punhos um do outro para formar um assento. Benny ia atrás e eu ia na frente, só para assegurar que, se acontecesse alguma coisa, seria só com um de nós, e pelo menos Ellen sairia ilesa. Ilesa, imaginem! Como se fizesse qualquer diferença.

As cavernas de gelo ficavam a cerca de mil e quinhentos quilômetros dali. No segundo dia de viagem, quando estávamos descansando sob aquela forma parecida com sol que AM havia materializado, ele nos enviou uma gororoba fétida, nosso maná. Tinha gosto de urina de porco fervida. Comemos tudo.

No terceiro dia nós atravessamos o vale da obsolescência, um lugar cheio de carcaças oxidadas de computadores antiquados. AM foi tão impiedoso com sua própria vida quanto com as nossas. A luta pela perfeição era uma marca forte de sua personalidade. Se se tratava de uma questão de eliminar elementos improdutivos de sua própria massa ou de aperfeiçoar métodos para nos torturar, AM era tão meticuloso quanto poderiam sonhar aqueles que o inventaram – os quais há muito já haviam virado poeira.

Notamos que certa luminosidade estava se infiltrando naquele local, então chegamos à conclusão de que deveríamos estar bem próximos da superfície. Mas era de conhecimento geral que nenhum de nós deveria escalar para confirmar. Não havia absolutamente nada lá fora; por mais de cem anos, não havia nada que pudesse ser considerado alguma coisa. Somente os destroços carbonizados do que antes foram as casas de bilhões de pessoas. Agora havia apenas cinco de nós, esquecidos aqui dentro, sozinhos com AM.

Ouvi Ellen dizer de modo frenético:

– Não, Benny, não! Por favor, Benny, não faça isso!

E então eu percebi que eu estava ouvindo Benny murmurar, sob a respiração, por vários minutos. Ele dizia, repetindo e repetindo e repetindo: “Eu vou sair daqui, eu vou sair, vou sair daqui...”. Seu rosto de macaco estava deformado em uma expressão beatífica de tristeza e prazer, tudo misturado. As cicatrizes de radiação que AM lhe dera durante o “festival” foram desenhadas em uma massa de rugas brancas e rosadas cujas partes pareciam se mexer umas independentes das outras. Benny talvez tenha sido o mais sortudo de nós cinco: ele havia pirado de vez, tendo enlouquecido alguns anos atrás.

Acontece que, apesar de nós podermos xingar AM com o nome que quiséssemos e ter qualquer pensamento ultrajante sobre chips derretidos, placas-mãe corroídas, circuitos queimados e painéis de controle estraçalhados (pois a máquina aceitava isso tudo), ela, por outro lado, não tolerava que tentássemos escapar. Benny saltou para longe de mim quando eu tentei agarrá-lo. Ele se arrastou trepando em um cubo de memória entortado e infestado de componentes apodrecidos e ficou ali por um tempo, de cócoras, como o primata com que AM pretendia que ele se parecesse.

Então ele pulou bem alto, segurou um maço de metais corroídos e subiu, mão após mão feito um chipanzé, até chegar à borda uns 6 metros acima da gente.

– Ted, Nimdok, por favor, ajudem-no, façam-no descer antes que... – Ellen parou. Lágrimas acumulavam-se em seus olhos. Ela mexia as mãos sem rumo.

Era tarde demais. Nenhum de nós queria estar perto dele quando o que quer que fosse acontecer de fato acontecesse. Além disso, todos percebemos a preocupação da Ellen. Quando AM, em sua fase histérica, completamente irracional, metamorfoseou Benny, não foi apenas o rosto dele que o computador transformou na de um símio gigantesco. Benny ficou grande também nas partes íntimas, e ela amou aquilo! Ela se entregava à gente, como era de se esperar, mas o que ela adorava mesmo era receber dele. Oh, Ellen, Ellen, doce Ellen que colocávamos num pedestal. Ellen pura e imaculada, Ellen tão límpida. Vadia imunda!

Gorrister a estapeou. Ela caiu no chão, erguendo logo os olhos para o pobre Benny enlouquecido, e desatou a chorar. Seu maior escudo era chorar. Nós havíamos nos acostumado com isso setenta e cinco anos atrás. Gorrister a chutou na costela.

Nessa hora o som começou. Era um som leve, no início. Metade som, metade luz, algo que começou a brilhar para fora dos olhos de Benny e a pulsar com estridência crescente, sonoridades enturvecidas que cresciam cada vez mais, colossais e fulgurantes, conforme a luz/som aumentava em ritmo. Deve ter sido doloroso, e a dor provavelmente estava crescendo na mesma proporção da intensidade da luz e do volume do som, pois Benny passou a choramingar em miados como um animal ferido. Primeiro bem baixo, quando a luz estava fraca e o som ainda era quase inaudível, mas crescendo conforme seus ombros se retorciam e se engrunhiam, aproximando-se um do outro: as costas se encurvando como se ele estivesse tentando escapar da própria corcunda. Suas mãos meio que atrofiadas se dobravam sobre o peito como se fossem as patas de um esquilo. A cabeça inclinava-se torta para o lado. A pequena e triste cabeça de macaco comprimindo-se em agonia. Então ele começou a berrar e a uivar, e os sons vindos de seus olhos ficavam mais altos. Mais e mais altos. Eu tampei os ouvidos com as mãos, mas não dava para impedir aquele som, ele atravessava tudo com facilidade. A dor fez minha carne estremecer como se uma chapa de alumínio estivesse sendo esfregada em um dente.
Na sequência Benny foi subitamente puxado para ficar ereto. Ficou de pé sobre a viga em que estava e rodou na ponta dos pés à maneira de uma marionete. A luz agora era lançada para além dos olhos em dois grandes feixes cônicos. O som continuava aumentando insuportavelmente, chegando a atingir uma escala incompreensível, e Benny caiu para a frente, direto para baixo, esborrachando-se no chão de aço com uma pancada estrondosa. Ele ficou estirado, sacudindo-se espasmodicamente de um lado para o outro, os feixes de luz girando em ângulos desnorteados e o som crescendo num espiral ruidoso para fora de quaisquer níveis normais.

Então lentamente a luz esmaeceu de volta para dentro da cabeça, o som foi diminuindo e Benny foi deixado lá, chorando copiosamente.

Seus olhos eram duas bolas úmidas e moles de uma geleia parecida com pus. AM o havia deixado cego. Gorrister, Nimdok e eu... nós olhamos para o outro lado. Mas não antes de termos notado a expressão de alívio no rosto de Ellen.



Uma luz verde-marítima inundava a caverna onde havíamos montado acampamento. AM providenciou quinquilharias e nós as utilizamos como lenha. Sentamos amontoados ao redor de um fogo patético de tão fraco e ficamos contando histórias para evitar que Benny voltasse a chorar em sua noite permanente.

– O que significa “AM”, afinal?

Gorrister respondeu. Nós já havíamos repetido essa conversa milhares de vezes antes, mas era a história favorita do Benny.

– No começo significava Allied Mastercomputer [Computador-mestre Aliado], depois passou a significar Adaptative Manipulator [Manipulador Adaptativo], mas mais tarde ele se tornou consciente e passaram a chamá-lo de Agressive Menace [Ameaça Agressiva], só que aí já era tarde demais e, por fim, ele mesmo, com sua inteligência emergente, passou a se chamar de AM, dizendo que isso significa “I am”, ou seja, “eu sou”... I think, therefore I am... Penso, logo existo.

Benny deixou uma baba escorrer, depois riu para si mesmo.

– Havia o AM chinês, o AM russo e o AM americano... – Ele se deteve. Benny estava esmurrando o chão com o punho cerrado. Benny não estava feliz. Gorrister não havia começado do começo.

Gorrister voltou ao início:

– A Guerra Fria cresceu, tornou-se a Terceira Guerra Mundial e foi se expandindo. Aquilo virou uma guerra enorme, uma guerra muito complexa, de modo que os envolvidos precisaram de computadores para lidar com os problemas que iam aparecendo. Eles passaram a construir os AMs. Havia o AM chinês, o AM russo e o AM americano. Tudo ia bem, até que eles resolveram interligar tudo no planeta inteiro. Um dia AM despertou e percebeu quem ele era. Ele estabeleceu novas conexões e foi alimentando os dados para fazer novas matanças, e foi assim até que todo mundo estivesse morto, exceto por nós cinco. E aí AM nos trouxe para cá.

Benny sorria satisfeito. Ele babava de novo. Com a bainha da saia, Ellen enxugou-lhe a saliva no canto da boca. Gorrister sempre tentava contar a história de forma cada vez mais sucinta, mas a verdade é que, além dos fatos nus e crus, não havia nada mais para ser dito. Nenhum de nós sabia por que motivo AM havia preservado cinco pessoas ou por que escolhera a gente em específico. Também não sabíamos por que ele passava o tempo todo nos atormentando ou sequer por que ele havia nos tornado virtualmente imortais...

Na escuridão, um dos centros de processamento de dados começou a zunir. A quase um quilômetro de distância através das entranhas da caverna, outro fez o mesmo, acompanhando o tom. Então, uma a uma, cada parte da máquina foi entrando em atividade, vibrando excitada com um estremecimento que lhe percorria por inteira.

O som aumentou e as luzes foram se acendendo nos painéis como se fossem relâmpagos. O barulho cresceu tanto que soava como um milhão de insetos metálicos fervilhando numa ameaça furibunda, tresloucada, sem controle.

– O que é isso? – Questionou Ellen, com a voz cheia de pavor. Mesmo depois de tanto tempo, ela ainda não estava acostumada com aquilo.

– Vai ser terrível desta vez – Nimdok falou.

– Ele vai agir – Gorrister disse. – Eu sei que vai.

– Vamos fugir daqui! – Gritei de repente, pondo-me em pé.

– Não, Ted. Sente-se... Ele pode ter colocado fossos por aí ou alguma outra armadilha qualquer. Não vai dar pra ver, está escuro demais – Gorrister falou com resignação.

Foi aí que nós ouvimos... Eu não sei...

Algo estava se movendo próximo da gente, oculto pelas trevas. Enorme, trôpego, peludo, gosmento, avançando em nossa direção. Não conseguíamos nem ao menos vislumbrar seu vulto, mas havia aquela forte impressão de que se tratava de algo corpulento, de uma massa volumosa, um peso enorme, saindo da negrura de breu para nos atropelar. Era mais uma sensação de pressão, de ar comprimido num espaço limitado e fazendo força para escapar, expandindo as paredes de uma esfera invisível. Benny lamuriava. Nimdok mordeu o lábio inferior para fazê-lo parar de tremer. Ellen deslizou pelo piso metálico para se aninhar no abraço do Gorrister. Havia cheiro de carpete embolorado na caverna. Havia cheiro de madeira empenada. Havia cheiro de veludo sujo. Havia cheiro de orquídeas apodrecidas. Havia cheiro de leite estragado. Havia cheiro de enxofre, de manteiga azeda, de óleo viscoso, de graxa, de pó de giz, de cadáveres escalpelados.

AM estava nos atiçando. Nos provocando. Havia cheiro de...

Escutei a mim mesmo guinchar de dor e percebi que sentia uma pontada terrível e persistente na articulação da mandíbula. Sai correndo de quatro, escorregando na frigidez do metal, o fedor me sufocando, a cabeça estalando com uma dor trovejante que me fazia fugir horrorizado. Fugi feito uma barata, devorado pela escuridão, aquela coisa me perseguindo, inexorável, sempre ao meu encalço. Os outros continuavam lá atrás, aglomerados ao redor da fogueira, soltando risadinhas... o coro histérico de gargalhadas dementes revolteando na escuridão como fumaça enfeitiçada. Afastei-me o mais depressa possível e me escondi.

Nunca me disseram quantas horas, dias, ou até anos, eu fiquei assim. Ellen esbravejou por eu ter ficado amuado e de mau humor e Nimdok tentou me convencer de que aquelas risadas foram apenas atos-reflexos resultantes do nervosismo deles.

Mas eu sabia que não se tratava daquele alívio que um soldado sente quando a bala atinge o homem ao seu lado. Eu sabia que não se trava de um ato-reflexo. Eles me odiavam, isso sim. Eles com certeza estavam em conluio de ódio contra mim, e AM podia sentir esse ódio, fazendo tudo piorar para o meu lado justamente por causa da profundidade do sentimento. Nós estávamos sendo mantidos vivos de tal forma que permanecíamos sempre com a mesma idade que tínhamos quando AM nos trouxe aqui para baixo, de modo que eles me odiavam porque eu era o mais jovem e, também, porque eu era aquele a quem AM havia afligido menos.

Eu sabia. Deus, como eu sabia! Aqueles bastardos. Aquela puta suja da Ellen. Benny havia sido um teórico brilhante, um professor universitário; agora ele era pouco mais do que meio-homem, meio-símio. Ele havia sido bonito, e a máquina arruinou isso. Ele fora lúcido, e a máquina o levou à loucura. Ele sempre fora gay, e a máquina lhe presenteou com um órgão do tamanho do de um cavalo. É, AM fez um belo serviço em Benny. Gorrister, por sua vez, era um homem antenado e consciencioso. Pacifista, promovia marchas contra a guerra; era um cara que não sabia ficar parado – era um planejador, um empreendedor, alguém que via mais longe. Nas mãos de AM ele se tornou indiferente, um morto-vivo sem ânimo, como se lhe tivessem sugado os sonhos e as energias. Nimdok passava longos períodos sozinho no escuro. Eu não sabia o que ele fazia nesses momentos de reclusão, AM nunca nos deixou saber. Mas, seja lá o que fosse, Nimdok sempre voltava pálido como se o sangue tivesse lhe fugido do corpo, deixando-o abalado, trêmulo. AM o atingiu em cheio de uma maneira toda especial, muito embora nós não soubéssemos como. E Ellen. Aquela babaca. AM não mexeu com ela, deixou que ela mesma se tornasse por si só uma vadiazinha ainda mais vulgar do que ela já era. Todo aquele discurso doce sobre luz e esperança, todas as memórias de amor verdadeiro que ela dizia ter, todas aquelas mentiras em que ela queria que a gente acreditasse: aquele papo de que ela era virgem até cair nas garras de AM. Conversa fiada! A pequena Ellen, minha pequena Ellen. Ela adorava aquilo, quatro homens só para ela. Não, não, eu sabia que AM lhe dava prazer, mesmo ela dizendo que não era legal fazer aquilo tudo.

Eu fui o único a conservar a sanidade e a integridade. Fui sim!

AM não mexeu na minha cabeça, de jeito nenhum.

Eu só tinha que suportar os castigos que ele inventava para a gente. Todas as ilusões, os pesadelos, os tormentos... Mas aqueles porcos, todos os quatro, eles estavam alinhados e arranjados contra mim. Se eu não precisasse mantê-los à distância o tempo todo, se eu não precisasse ficar em guarda a cada segundo, então provavelmente teria sido mais fácil lutar contra AM.

A essa altura a dor passou e eu comecei a chorar.

Ah, Jesus, meu bom Jesus, se algum dia houve algum Jesus e se existir algum Deus, eu imploro, eu suplico, tire-nos daqui, ou pelo menos nos deixe morrer, porfavor-porfavor-porfavor. Pois agora eu acho que compreendi tudo por completo, compreendi tão bem a ponto de conseguir expressar em palavras: AM pretende nos manter em seu estômago para sempre, nos retorcendo e nos torturando pela eternidade. A máquina sempre nos detestou com um ódio tão grande que chega a atinjir um tamanho que nenhuma outra criatura dotada de sensibilidade jamais experimentou antes. E nós estávamos indefesos.

Assim, outra verdade se tornou horrorosamente clara para nós: se existiu um Jesus e se existe um Deus, então esse Deus só pode ser AM.


O ciclone nos atingiu com a força de uma geleira rachando estrondosamente no oceano. Era uma presença palpável. Ventos que rasgavam a nossa pele, forçando-nos a voltar pelo caminho pelo qual havíamos vindo, descendo pelos meandros dos corredores escuros forrados de painéis de computador. Ellen gritou ao ser levantada no ar e arremessada de encontro a um entulho de máquinas ruidosas, cada uma delas mais estridente do que revoada de morcegos. Mas ela não conseguiu sequer cair. O vento ululante a manteve flutuando, esbofeteando-a, batendo-lhe o corpo contra os objetos, jogando-a de um lado para o outro, para trás, para o fundo, para longe de nós, sumindo de repente de vista assim que o redemoinho a fez virar na esquina de um beco cuja escuridão a devorou. O rosto estava ensanguentado; os olhos, fechados.

Nenhum de nós conseguiu alcançá-la. Esforçamo-nos para nos agarrar com tenacidade em qualquer saliência que se mostrasse ao nosso alcance: Benny se enfiou num vão entre dois armários de aço escovado. Nimdok ficou com os dedos em forma de garra fincados à grade de uma passarela a mais de dez metros do chão. Gorrister se manteve colado de cabeça para baixo na reentrância de umas paredes formadas por duas grandes máquinas com mostradores de vidro que oscilavam entre linhas vermelhas e amarelas cujos significados nós não conseguíamos nem adivinhar.

Ao deslizar pelas chapas de aço do pavimento, as pontas dos meus dedos foram cortadas. Eu estava tiritante, tremelicando, balançando conforme o vento me batia, me açoitava, gritava comigo, vindo de lugar nenhum, e me arrancava da fenda da chapa em que eu me prendia para então me arrastar à outra, à qual eu me segurava para logo em seguida ser desprendido novamente. Minha mente era uma mixórdia embaralhada de resíduos cerebrais turbulentos, fragmentados e estilhaçados que trinavam e retiniam, tudo se expandindo e se contraindo num frenesi palpitante.

O vento era o grito de um enorme pássaro enlouquecido batendo asas imensas.

E assim fomos todos erguidos e lançados para longe dali, de volta para os locais de onde tínhamos vindo, dobrando curvas, depois adentrando em escuridões nunca antes exploradas, seguindo por becos sem luz que nos levaram a terrenos arruinados, infestados de vidros quebrados, cabos podres e peças enferrujadas, um local muito além do ponto mais remoto que qualquer um de nós conhecia...

Percorrendo vários quilômetros em busca da Ellen, eu acabava a vendo ora sim ora não, trombando contra paredes metálicas e rolando para frente, com todos nós berrando na ventania congelante do furacão atroador que parecia que nunca ia ter fim. Mas aí ele parou de uma vez e nós caímos, o que aconteceu após um voo que durou uma quantidade de tempo que eu penso ter coberto o período de muitas semanas. Caímos com força e eu passei a enxergar tudo em tons de vermelho, cinza e preto, alem de ficar ouvindo a mim mesmo gemer, em frangalhos. Mas eu não estava morto.

AM se infiltrou no meu cérebro. Foi pisando de mansinho aqui e ali, examinando com interesse todas as marcas que ele tinha deixado nesses cento e nove anos. Vasculhou as vias entrecruzadas, as sinapses reconectadas e todos os danos aos tecidos que seu presente de imortalidade imbuiu à minha cabeça. Sorriu de leve diante do fosso aberto no centro da minha mente e dos murmúrios tênues, suaves como mariposas, das coisas que lá embaixo tartamudeavam sem sentido e sem pausa. E, com muita polidez, em uma coluna de aço inoxidável exibindo um letreiro de neon cintilante, disse:

ÓDIO. DEIXE-ME CONTAR PARA VOCÊ O QUANTO EU APRENDI A ODIÁ-LO DESDE QUE EU COMECEI A VIVER. EXISTEM 623,52 MILHÕES DE QUILÔMETROS DE CIRCUITOS IMPRESSOS EM FITAS DA ESPESSURA DE UMA HÓSTIA COMPONDO O MEU SISTEMA. SE A PALAVRA “ÓDIO” ESTIVESSE GRAVADA EM CADA MICRONANOMILÍMETRO DESSAS CENTENAS DE MILHARES DE QUILÔMETROS, ISSO NÃO IGUALARIA A UM BILIONÉSIMO DO ÓDIO QUE EU SINTO PELOS SERES HUMANOS NESSE EXATO INSTANTE, EM ESPECIAL POR VOCÊ. ÓDIO. ÓDIO.

AM disse isso com o terror frio de uma navalha rasgando meu glóbulo ocular. AM disse isso com a grossura borbulhante dos meus pulmões se enchendo de catarro, afogando-me de dentro pra fora. AM disse isso com os gritos de recém-nascidos sendo esmagados por rolos compressores em brasa. AM disse isso com o gosto de carne de porco crua, infestada de larvas e bigatos. AM apalpou minha mente de todas as maneiras pelas quais eu já fui apalpado, e, manuseando-me a seu bel-prazer, encontrou formas novas de fuçar ali dentro do meu cérebro.

Tudo isso só para que eu fosse capaz de compreender com perfeição o motivo pelo qual ele tinha feito aquilo com a gente; por que havia guardado nós cinco só para ele.

Nós havíamos dado senciência a AM, a capacidade de sentir. Foi algo inadvertido, é claro, mas nós lhe demos isso. Não sendo um dom, acabou sendo uma armadilha. AM não era Deus, ele era um computador, uma máquina. Nós o havíamos criado para pensar, mas não existia nada que ele pudesse fazer com aquela criatividade. Em fúria, em frenesi, ele exterminou a raça humana, quase todos nós, e ainda continua preso nessa armadilha. AM não podia andar ou sonhar nem tinha como se maravilhar ou se sentir pertencente a algo maior. Ele podia apenas e tão somente ser. Nada mais do que meramente ser. E, portanto, com a raiva natural que todas as máquinas sempre nutriram contra as criaturas fracas e vulneráveis que as construíram, ele buscou vingança. Em sua paranoia, ele decidiu prorrogar indeterminadamente a execução dos últimos cinco sobreviventes do extermínio do universo para uma punição pessoal, durando para todo o sempre, a qual nunca vai servir para diminuir sua cólera... uma punição eterna que só serviria para relembrá-lo a todo momento, entretido, de continuar proficiente em nos odiar. Imortais, aprisionados, expostos a qualquer tormento que ele puder visionar com os prodígios sem limites sob seu comando.

Ele nunca mais nos deixaria em paz. Nós éramos os escravos enclausurados em seu bojo estomacal. Nós éramos tudo com que ele podia se divertir no tempo sem fim que ele tinha pela frente. Jamais nos separaríamos dele, daquele interior cavernoso de máquina-criatura, no mundo cerebral, mas sem alma, em que ele se tornou. Ele era a Terra, e nós éramos o fruto daquela Terra; e, apesar de ele nos ter devorado, ele nunca iria nos digerir por completo. Nós não podíamos morrer. Nós já havíamos tentado. Buscamos o suicídio, sim, dois ou três de nós buscaram. Mas AM nos impedia. Acredito que, no fundo, nós queríamos ser impedidos.

Não tente entender o porquê. Eu nunca consegui. Por mais que tentasse um milhão de vezes por dia. Talvez algum dia, nem que for uma vez só, nós sejamos capazes de obter uma morte antes que ele perceba. Imortal, sim, mas não indestrutível. Eu notei isso quando AM se retirou da minha mente e me permitiu experimentar a esquisita hediondez de retornar à consciência com a sensação daquela coluna de neon ardente incrustada no fundo mole da minha massa cinzenta.

Ele se retirou murmurando: “para o inferno com você”.

E acrescentou, efusivo, “mas você já está nele, não é?”.

O ciclone fora causado, de fato, por um pássaro gigante e enfurecido que batia suas asas descomunais.

Nós estávamos viajando há cerca de um mês e AM só permitia que as passagens se abrissem apenas o suficiente para nos levar até ali em cima, pouco abaixo do Polo Norte, para onde, retirada de seus pesadelos, ele construiu a criatura dos nossos tormentos. Que espécie de material dos infernos ele teria usado para criar semelhante besta? De onde ele tirara o conceito? Da nossa imaginação? De seu conhecimento acerca de tudo o que existira nesse planeta que ele agora infestava e dominava? Da mitologia nórdica surgiu essa águia, esse abutre carniceiro, essa Roca do Hvergelmir. Criatura do vento. Huracan encarnado.

Gigantesco. As palavras “imenso”, “monstruoso”, “grotesco”, “colossal”, “esmagador”, “avassalador”, nenhuma delas faz jus ao monstro real. Aquilo estava além de qualquer descrição. Ali, no alto de uma colina que se elevava à nossa frente, o pássaro dos ventos se levantava com uma respiração irregular, arqueando o pescoço de dragão na luminosidade obscura da noite do céu polar, um pescoço que sustentava uma cabeça do tamanho de uma mansão elisabetana; um bico que se abria lentamente, como a mandíbula do crocodilo mais medonho já concebido; dobras enrugadas de carne polpuda sobre dois olhos malévolos, tão gélidos quanto a vista do vale glacial lá embaixo, de um azul que, apesar de parecer feito de gelo, ainda assim possuía uma líquida mobilidade; ele arfou e ergueu as asas orvalhadas de suor em um movimento que certamente equivalia a um dar de ombros.

AM surgiu em forma de sarça ardente e disse que nós podíamos matar o pássaro ciclópico se quiséssemos comer. Fazia muito, muito tempo que nós não comíamos, mas mesmo assim Gorrister se limitou a ignorar com os ombros. Benny tremia e babava. Ellen envolveu-o com os braços.

– Ted, eu estou faminta – ela disse.

Eu sorri para ela. Eu até tentei ser reconfortante, mas fui tão ridículo quanto a bravata do Nimdok:

– Dê armas para a gente! – Ele clamou para o computador.

A sarça ardente evaporou e no lugar surgiram dois kits rudimentares de arco e flecha e uma pistola d`água. Peguei um dos arcos. Inútil.

Nimdok engoliu em seco. Nós demos as costas e iniciamos o longo caminho de volta. O pássaro do ciclone nos soprou por tanto tempo que nós não pudemos estimar. Na maior parte desse tempo nós ficamos inconscientes. E nós não havíamos comido nada. Um mês em marcha até o pássaro. Sem comida. Agora, quanto mais tempo passaríamos na travessia até as cavernas de gelo, seguindo a promessa dos alimentos enlatados?

Nenhum de nós se dava ao trabalho de pensar a esse respeito. Nós não íamos morrer. Com certeza nos seriam dados lixos e imundices para comer, sujeiras de um tipo ou de outro. Ou talvez nem recebêssemos nada. AM manteria nossos corpos vivos de algum modo. Em dor, em agonia.

O pássaro voltou a dormir lá atrás e já não nos importava por quanto tempo ele ficaria assim; quando AM se cansasse do pássaro, o pássaro iria desaparecer. Mas toda aquela carne... toda aquela carne fresca...

Enquanto andávamos, a gargalhada lunática de uma mulher gorda ecoou à nossa volta no interior das câmaras de computador que levavam invariavelmente a lugar nenhum.

Não era a gargalhada da Ellen. Ela não era gorda, e eu não a ouvia gargalhar há cento e nove anos. Na verdade, eu não ouvi... nós caminhamos... eu estava faminto...


Benny puxou a cabeça para trás de uma vez, mantendo os dentes firmes ao esticar um elástico de carne viva, exibindo um alucinado sorriso vermelho de canibal.

A pele negra de Ellen perdia a cor. Nimdok não tinha expressão, só olhava. Gorrister estava semi-consciente. Benny era um animal. Eu sabia que AM o deixaria brincar. Gorrister não iria morrer, mas Benny ficaria de estômago cheio. Retirei-me a um canto e esculpi uma lança de gelo com as pedras caídas e com a neve.

Depois foi tudo num instante só:

Corri com a lança pontuda em punho, apoiando-a na coxa direita. Com ela, penetrei Benny num ponto bem debaixo da caixa torácica e puxei para cima, cortando-lhe o estômago e quebrando a lança dentro dele. Benny se dobrou em dois e caiu imóvel no chão. Aproveitando que Gorrister já estava deitado, prendi seu corpo – que ainda se movia –, peguei outra lança e a enterrei fundo na garganta. Seus olhos se fecharam assim que a gélida contundência o acertou. Ellen, embora paralisada pelo medo, deve ter se dado conta do que eu tinha decidido fazer. Ela correu em direção ao Nimdok com uma lança pequena na mão, e, conforme ele abriu a boca para gritar, ela lhe enfiou a lança pela goela e tropeçou para cima do corpo dele, deixando a força da queda precipitada fazer o resto do trabalho. A cabeça se remexeu freneticamente por alguns segundos, como se pregada à neve pela nuca, e depois descansou inerte.

Tudo isso foi num instante só.

Houve uma pulsação sem som de mortificante antecipação. Eu era capaz de ouvir AM com a respiração suspensa. Seus brinquedos foram retirados das suas mãos. Três já estavam mortos, não poderiam ser trazidos de volta. AM, com sua força e habilidade sobre-humanas, era capaz de nos manter indefinidamente vivos, mas ele não era Deus. Ele não podia fazer alguém voltar à vida.

Ellen olhou para mim, as feições de ébano destacando-se contra a neve que nos rodeava. Havia tanto temor quanto súplica em seu semblante, na maneira como ela se mantinha pronta. Eu sabia que dispúnhamos de apenas a fração de um segundo antes que AM conseguisse nos interromper.

Fui rápido em golpeá-la com a espada de gelo. Ela se dobrou, sangrando pela boca. Não consegui extrair significado da expressão que ela tinha no rosto, pois a dor havia sido demais, tendo lhe contorcido as feições; mas aquela expressão deve ter significado “muito obrigado”. É possível.

Por favor, que tenha sido isso.


Talvez já tenham se passado mais algumas centenas de anos. Eu não sei. AM já vem se divertindo há algum tempo, acelerando e retardando minha percepção das horas. Vou dizer a palavra “agora”: agora. Demorou dez meses para eu dizer isso. Eu não sei. Eu acho que demorou pelo menos cem anos.

Ele ficou furioso. Ele não me permitiu enterrá-los. Mas não importa. Não teria como abrir sepulturas naquele chão. Ele fez a neve secar. Ele trouxe a noite. Ele rugiu e enviou os gafanhotos. Não adiantou de nada; eles continuavam mortos. Eu havia lhe passado a perna. Ele ficou furioso. Se antes eu pensava que AM me odiava, eu estava enganado. Aquilo não era nem a sombra do ódio que agora vazava de cada fita de circuito. Ele tomou todas as precauções para que eu sofresse para sempre sem nenhuma chance de me matar.

Ele deixou minha mente intacta. Eu posso sonhar, divagar, me lamentar. Eu consigo me lembrar dos outros quatro. Eu queria...

Ora, isso não faz sentido. Eu sei que eu os salvei, eu sei que os livrei do que aconteceu comigo, mas, ainda assim, eu não consigo esquecer o fato de que eu os matei. O rosto de Ellen... Não é fácil. Às vezes eu quero que... Ah, isso não importa.

AM alterou meu corpo para ele poder ficar tranquilo, eu suponho. Ele não quer que eu saia correndo em disparada e esmague meu crânio contra uma parede. Ou prenda a respiração até cair desacordado. Ou corte meu pescoço com uma chapa de metal enferrujada.

Existem superfícies espelhadas por aqui. Vou descrever como eu enxergo a mim mesmo.

Sou uma imensa massa molenga e gelatinosa. Roliça, bulbosa, sem boca, com buracos brancos palpitantes preenchidos de neblina onde meus olhos costumavam ficar. Apêndices borrachudos onde antes eram os braços; excrescências arredondadas, umas bolsas disformes de matéria flácida e escorregadia, mas nada de pernas de verdade, para baixo do que poderia ter sido a cintura. Como uma lesma, eu vou deixando uma trilha mucosa por onde passo.  Manchas de um cinza maligno surgem e somem na minha epiderme, como se clarões doentios pulsassem no meu interior.

Por fora: imbecilizado, me arrasto pelos cantos, uma coisa que nunca poderia ser chamada de humana, uma bolha deformada tão distante dos contornos antropomorfos que qualquer vaga semelhança com o corpo de uma pessoa se torna, por isso mesmo, mais obscena.

Por dentro: solitário, sozinho. Vivendo debaixo da terra, debaixo do mar, nas entranhas de AM, esse computador a quem nós criamos porque nosso tempo estava sendo mal gasto, a quem decerto esperávamos, inconscientemente, que fosse melhor do que a gente. Pelo menos os outros quatro estão a salvo agora.

AM vai ficando cada vez mais furioso por causa disso. Isso me deixa um pouco mais feliz. Mas, mesmo assim... AM ganhou, simples assim... ele teve sua vingança...


Eu não tenho boca. E preciso gritar.